quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Capítulo 22 - Atitudes

Minha esposa me chamou para o jantar, acabei ficando por lá até a hora de deitarmos. E como eu e nem ela estávamos muito afim, fui ler mais um trecho do diário.
Kazuko, na época do diário, estava completamente chateada comigo. Eu não sabia o motivo (pelo menos até algumas horas atrás) e tinha que resolver isso. Essa anotação data do dia seguinte.

Querido diário,

Está um lindo Sol lá fora, pena que eu não posso sair.
Ontem foi um dia, eu diria, um tanto estranho. Makoto está com umas atitudes que me deixam com a pulga atrás da orelha.
Eu ainda fiquei meio chateada com o ocorrido. Aquele maldito sussurro de nome alheio do Makoto. Ele percebeu que eu estava meio para baixo e tirou o dia para me dar um tratamento digno.
O próprio me acordou, e ao despertar, pude ver que ele trouxe o café da manhã na cama.
-Bom dia, Kazuko! - falou com um sorriso
-Bom dia, Makoto. - bocejei – Para quê isso? - apontei
-Você ficou meio mal ontem, só quero te agradar.
-Obrigada. - sorri
Acha mesmo que seria mal educada ao ponto de não agradecer?
Comemos junto ali mesmo, e em seguida, iria tomar meu banho matinal.
-Por que não usa a banheira daqui?
-Até que não é má ideia.
Adentrei ao banheiro da suíte e enchi a banheira, sem me esquecer de colocar os sais de banho de minha preferência. Tirei a roupa e entrei, sentei e reclinei a cabeça, respirei fundo. Ouvi a voz de Makoto em seguida:
-Eu posso tomar banho com você?
Ele me perguntou? Foi isso mesmo?
-Pode! - não podia responder de outra forma
Ele se despiu e sentou-se atrás de mim, me abraçando. Que coisa desconfortável!
Pôs o queixo na curva do meu pescoço e indagou:
-Por que você chorou ontem?
-Hormônios.
Eita porra de desculpa esfarrapada.
-Entendo.”

Eu realmente caí nessa desculpa. (risos)

Suas mãos estavam sob a minha barriga, acariciando o bebê.
-Engraçado... Você não tem vomitado mais.
-Eu já acostumei. Só tô um pouquinho enjoada porque acabei de comer.
Peguei o sabonete e comecei a limpar os braços e peito.
-Deixa que eu passo nas suas costas. - se pronunciou
Entreguei o sabonete a ele que passou nas minhas costas.
-Quer que eu lave as suas também?
-Deixo você me ensaboar todo. - falou rindo”

Vai dizer que não é bom quando alguém dá banho em você?
Eu estava aproveitando para ter alguns momentos mais afetivos com a Kazuko, afinal, nós teríamos um filho juntos. E também havia essa história de “encararmos isso juntos”. Desde sempre quis ter uma relação mais próxima com ela, e esta estava sendo a oportunidade perfeita.

Realmente, o que deu nele?
Eu me enxaguei e passei o sabonete em Makoto depois.
Fui ao meu quarto e troquei de roupa. Dirigi-me a biblioteca e peguei alguns livros de gravidez, tudo por curiosidade. E não esqueci do meu chá.
Fiquei algumas horas lendo, sentada no sofá. Não percebi o tempo passar, só ouvia Makoto mexendo com as panelas e outras coisas. Também sentia o cheiro da comida. Ele me chamou:
-Kazuko, almoço.
-Não sabia que você fazia sopa.
-Keiko me ensinou. Temei para acertar, agora sempre dá certo.
Era uma simples sopa de legumes, mas que estava uma delícia. Eu até repeti, coisa que não costumo fazer.
-Parece que tá com fome, hein.
-Acho que comendo por dois, não é uma coisa estranha. - soltei um bocejo – E também esse sono interminável...
Makoto sorriu.
Eu saí da mesa e me deitei no sofá. Acabei adormecendo. Acordei com Makoto me chamando e me pedindo para trocar de roupa. Íamos dar uma volta, já que ele estava sem a costumeira “roupa de casa”. Fiz conforme ele disse. Parecia que preparara algumas coisas para comermos. Será que iríamos tão longe assim?
Ainda era o meio da tarde quando saímos. Makoto saiu da cidade e começou a subir a montanha. Curvas e mais curvas. Elas estavam me deixando enjoada. Já conhecia aquele caminho, só não recordava dele tão nitidamente. Fomos para lá durante a noite. O mesmo lugar onde vislumbrei a vista noturna da cidade.”

Pois é, eu e Kazuko gostamos muito deste lugar. Já perdi as contas de quantas vezes fomos lá.

Chegamos, e ele estacionou o carro, tirando as coisas da mala em seguida. Montou um piquenique em baixo de uma das árvores.
Olhei surpresa para ele.
-Piquenique, Makoto?
-É! E também veremos o pôr-do-sol. Que foi? Que cara é essa?
-Eu nunca fiz um piquenique antes. Bem, do “meu lado da cidade” mal tem árvores.
-Sei disso! - sorriu – Porém, nunca é tarde para uma primeira vez. - fez um gesto para que me sentasse – Trouxe uns sanduíches, sucos, frutas e bolo
-Oba! - comentei”.

Vocês devem ter uma curiosidade sobre como é o “meu lado da cidade” que Kazuko tanto falava. Permitam-me esclarecer.
A cidade onde moramos, Ioma, é dividida em dois lados: O “rico” e o “pobre”.
O lado rico é constituído por muitos prédios altos e mais adiante, as casas. Podemos ver o céu limpo por entre os prédios cinza-claro. As ruas são limpas, claras, com árvores e bastante trânsito. Muitas pessoas dia e noite. Já o lado pobre, também tem muitos prédios e casas. Porém, não há quase natureza alguma. O céu lá é sempre cinzento e chove na maioria dos dias. As ruas são cheias de sujeira. Realmente lá tem um ar mais sombrio, principalmente à noite, quando as ruas são mais vazias e os centros de escravos estão abertos.

Comi algumas coisas e o sono veio, outra vez. Bocejei.
-Quer descansar? Deita aqui. - falou Makoto, sinalizando o seu colo – Só não durma, senão vai perder o Sol se pondo.
Bem, era melhor deitar no colo dele do que na toalha esticada na grama. Assim o fiz, e ele começou a mexer em meus cabelos e perguntou (algo até normal pelas circunstâncias, mas estranho por ser para mim):
-Então, Kazuko, você pensou em um nome?
-Nome?
-Para o nosso filho.
-Ah, pode ser o nome que você quiser.
-Mas não chegou a pensar em nenhum?
-Pensei sim. Se for menina: Kimiyo. Se for menino: Kazuhito.
-Eu gosto de Takumi.
-Takumi? É um belo nome.
-Sempre imaginei que teria um filho com esse nome, mas gostei dos que escolheu.
-O próximo pode se chamar Takumi.
-Próximo? - ele quem se chocou dessa vez
-Não vai querer outro no futuro?
-Claro que sim! - ele respondeu, encabulado – Mas não é hora de pensar nisso.
-Eu só comentei, Makoto. - falei rindo
Ficamos alguns minutos em silêncio.
-Olha, Kazuko, hora do pôr-do-sol. - ele me chamou
Levantei, e passamos a observar a paisagem. Eu vi o Sol se escondendo devagarzinho por entre as montanhas. Era laranja e amarelo, misturado com o verde das árvores. Uma vista tão bonita quanto as luzes noturnas do outro dia. Nunca vi o Sol se pôr de maneira tão nítida e bela. É muito difícil vê-lo por entre todos os prédios. Eu me permiti chorar, não sei o porquê, só chorei.
-Kazuko, tá tudo bem?
-Tudo bem, Makoto. - respondi, enxugando as lágrimas – Eu jamais vi nada igual a isso na minha vida.
Ele me abraçou, me consolando e proferiu em seguida:
-Acho que viver do lado pobre da cidade te privou de muitas coisas simples.
Não disse mais nada depois disso. Eu chorei por mais uns minutos e quando já estava escuro, voltamos para casa.
Comi mais um pouco da sopa e fui ver algo na televisão e acabei pegando no sono. Despertei sentindo o meu corpo sacudir, como se se alguém me carregasse. E era isso mesmo. Makoto me levava até a cama. Ele viu que eu abrira os olhos:
-Desculpe. Eu te acordei. Já vai poder dormir de novo, estamos chegando.
Ele abriu a porta do meu quarto com o pé, já que estava entreaberta. Colocou-me na cama e se deitou ao meu lado. Desejou-me boa noite, me deu um beijo na testa e eu apaguei de novo.
Levantei hoje com ele me chamando. Fizemos todas as coisas rotineiras e antes de se despedir, ajoelhou-se diante de mim e beijou a minha barriga. Tudo bem que eu permiti, só que eu fiquei muito envergonhada da Keiko ter visto essa cena.
-Ai, ai. Nunca imaginei que o Makoto fosse fazer isso. Ele parece estar tão feliz pelo bebê.
Eu sorri, concordei e depois, vim para cá.
Bem, diário, agora cuidarei dos meus outros afazeres.”

E a anotação terminou, com um enorme bocejo na sequência.

Pus o diário na mesa de cabeceira e me ajeitei para dormir. Tinha trabalho no dia seguinte.

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