segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Capítulo 32 - A trabalho?

Algumas semanas passaram e tive alguns casos grandes para defender. Ainda mais um que entrou em evidência. Um dono alforriou sua escrava e meses depois ela teve um filho. Então, a esposa quis a guarda dessa criança. Eu estava na defesa do casal, mas eu não pude não ter pena da ex-escrava. Ela recebeu um advogado por conta da lei que diz que todos têm direito a defesa. O advogado era bom, mas ainda tinha muito a aprender.
Até tentei ajudar oferecendo uma ideia de acordo, porém o casal foi incisivo e disse que não.
Meus argumentos deram ganho de causa ao casal e a ex-escrava nunca mais veria o filho. Só restou a ela sair chorando. O casal me agradeceu o bom serviço e informaram que me recomendariam aos amigos.
Sai do tribunal e vi a mulher dando um último abraço no filho, antes de entregá-lo ao casal. Observei a cena com uma dor no peito. Lembrei imediatamente de Takumi e me coloquei na situação. Eu não teria coragem de fazer a mesma coisa. Meu olhar cruzou com o da ex-escrava e pude ver o sofrimento. Contudo, não consegui lhe dar nenhuma palavra de conforto. Eu nem podia imaginar o que ela sentia.
Retornei ao escritório completamente arrasado. Passei na sala do meu chefe, que me indagou:
-Então, como foi? Qual o resultado?
-Eu ganhei.
-Meus parabéns, Makoto. - apertou minha mão – Mas não me parece feliz.
-Acho que sabe o porquê.
-São os ócios do ofício. Você defende uma posição que é contra.
-Eu sei!
-Tire uns dias de folga. Merece por seu bom trabalho.
Agradeci e dirigi até minha casa. Cheguei e parece que Kazuko saiu com Keiko e Takumi, vide o silêncio que estava quando entrei.
Decidi pegar o diário para poder relaxar um pouco. Abri no trecho em que Kazuko passou um fim de semana com a mãe, que foi algumas semanas depois do aniversário do meu pai.

“Querido diário,

Eis que estou sentada na cadeira da escrivaninha do meu quarto, na casa da minha mãe. Não fui alforriada. Bem que eu queria, mas não. Só estou aqui porque Makoto fez uma viagem a trabalho e não quis me deixar sozinha e me trouxe para passar o final de semana na companhia de mamãe. Saímos no final da noite de ontem e eu dormi aqui.
É tarde da noite de um sábado agora. Assim que terminar de escrever, irei dormir.
Acordei e desci para comer de manhã. A primeira coisa que atingiu minhas narinas foi o cheiro da comida. Que saudade!
Uma coisa que percebi é a diferença da mesa que minha mãe põe aqui e a que Keiko arruma na casa de Makoto. A quantidade de escolhas que tenho todas as manhãs é bem maior do que antes. Porém, aqui tem algo que não tenho lá: Família.
Após comermos, saímos para ir numa praça próxima.
-Eu tinha esquecido em como as ruas daqui são sujas. E tão cinza! - falei
-O lado de lá parece até um outro mundo. - mamãe completou
Chegamos alguns minutos depois. Tinha bastante gente no lugar, continuamos caminhando e conversando:
-Nem perguntei como foi a viagem, filha.
-Eu gostei, me diverti muito.
-Ninguém ficou te olhando torto lá?
-Não. Makoto deu um jeito para que isso não ocorresse.
-Como?
-Um casamento de mentira.
Mamãe arregalou os olhos e gaguejou:
-Não sei o que dizer sobre isso. Não sei se acho estranho ou se acho que foi algo bom da parte dele.
-Entendo isso como fantasia dele.
-Mas que fantasia mais maluca!
-Ricos, mãe. Ricos!
-Makoto é um bom rapaz, mas como todo rico tem algumas coisas estranhas. Só fico feliz que isso tornou a viagem melhor para ti.
Sentamo-nos em um banco próximo aos brinquedos, onde muitas crianças estavam. Observei-as correndo, pulando, escalando, escorregando e fui capaz de me ver nelas. O quanto fui àquele lugar e tive momentos felizes. Saudades da minha infância despreocupada, até o primeiro dia que fui ao centro de escravos.
Minha mãe percebeu o meu olhar e perguntou:
-Sente falta daqui, filha?
-Claro que sim. A gente só percebe como é bom ser livre quando se deixa de ser.
O silêncio da possível resposta foi o modo de concordância dela. E eu continuei:
-Mas é como dizem, mamãe: eu tirei a sorte grande. Não acho que tenha sido tão ruim assim, pelo menos, na maior parte do tempo. Só que eu passei por alguns problemas.
-Em comparação com todos os outros que conhecemos, você realmente vive bem melhor agora. Inclusive engordou um pouco.
-Posso até estar vivendo “melhor”, mas,  trocaria tudo pela minha liberdade.
-Quem não faria esta troca?
Então, apareceu uma conhecida e nos abordou:
-Kazuko, Saiko, quanto tempo. Foi liberta, menina?
-Não. - mamãe respondeu por mim – O dono foi viajar e a deixou comigo.
-Isso existe? Não sabia. - e riu – Realmente, Saiko, sua filha é muito sortuda.
Caramba! Não aguento mais ouvir isso. Que coisa chata!
A mulher e minha mãe ficaram conversando um bocado e eu tentei suportar a conversa, mas não dava. Pedi licença e fui a um dos balanços livres, mesmo que ele não fosse do meu tamanho. Fiz exatamente da mesma forma de quando infante. O mais alto que podia, como se quisesse alcançar o céu. Porém, não o via da maneira cinzenta daqui. Era azul, assim como o da praia.
Todos me falam da sorte que tenho tendo Makoto como dono. Ser escrava não é uma coisa boa. Para ninguém, em lugar nenhum!
Não passei apenas por coisas boas. Sim, Makoto é muito bom dono, mas não perfeito. Tivemos discussões, brigas e algumas situações estranhas. E sobre estas, eu prefiro nem comentar.
Posso sair durante o dia, fazer o que quiser, ir aonde quiser, contudo, em todas as noites ou a maioria delas devo estar com ele no quarto. Ainda é prisão. Ainda é escravidão. Ainda é algo a que sou obrigada. Não é bom, definitivamente.
Perdia a noção do tempo e logo mamãe me chamou para voltarmos. Agradeci por isso!”

Imaginei que Kazuko passasse mesmo por tudo isso. Havia coisas boas, porém o mais importante ela não tinha. Não adiantava tudo o que desse a ela, o que queria era liberdade.

“Almoçamos, assistimos a um filme e depois ajudei-a com algumas coisas, por exemplo, os serviços que ela faz pra fora. Costura, doces, artesanato. Minha mãe é versátil nisso, porque precisa ganhar dinheiro. E era algo que senti saudade também. Gosto desses trabalhos manuais.
Ficamos até ainda agora fazendo isso. Só vim escrever antes de dormir.
Até amanhã!”

Imediatamente passei à anotação seguinte, ainda sem sinal de alguém chegar.

“Olá diário,

já voltei a casa de Makoto. É segunda agora!
Eu fiquei o domingo todo praticamente num aniversário de uma prima, ou pelo menos, até o anoitecer. Foi o 10º aniversário e sua primeira noite no centro de escravos.
E, sinceramente, o primeiro aniversário desse período não é feliz. Se assemelha a uma espécie de tortura, que pode piorar ao ser comprada ou dura longos oito anos.
Ainda lembro da minha ansiedade ao completar os dezessete. Faltava um ano só! E poucos meses depois, enfim, já sabe o resto.
E ao ver o rostinho da minha priminha sendo arrumada para ir para lá, recordei de mim. Da primeira noite e de todas as outras, até aquela que vi um homem de terno me olhando fixamente enquanto dançava. O mais engraçado foram os desejos de boa sorte a ela. Eu não consegui seguir esse padrão. Abaixei-me na altura dela, a abracei e falei:
-Fique bem! E seja você mesma.
-Obrigada! - ela se desvencilhou de mim – Sabe, Kazuko, se for comprada, quero que seja por um dono que nem o seu.
-Não pense assim. Não há nada melhor do que ser livre. Não pense nem em ser comprada.
E claro, veio aquela fala que me atormenta: Kazuko, você tirou a sorte grande. Ela tá certa!
Assim que ela saiu, meu celular tocou, era Makoto dizendo que estava próximo. E e minha mãe nos despedimos e voltamos para casa. Peguei a bolsa que levei com alguns pertences e cerca de quinze minutos depois estava me despedindo de mamãe e entrando no carro. A primeira coisa que notei foi um perfume diferente, feminino eu diria. Nem comentei sobre, apenas cumprimentei Makoto e perguntei:
-Como foi a viagem?
-Foi cansativa. Mas consegui encontrar os documentos que estava procurando. E você, se divertiu?
-Sim! Mesmo que o final da tarde agora não tenha sido nem um pouco.
Ele quis saber o porquê e lhe contei. Então falou:
-Não consigo imaginar o que vocês passam.
-Agradeça por isso, Makoto.
O resto do caminho seguiu quieto.
Chegamos e entramos. Makoto foi em direção ao quarto, fui atrás dele e logo alcancei-o. Sim, ia beijá-lo, porque eu queria. A regra é assim! Porém, ele me impediu. Obviamente, entendeu errado.
-Kazuko, não quero ir para o quarto. Tô cansado! Só quero tomar um banho antes de dormir.
Ia retrucar, mas, mesmo com a pouca luz do corredor, vi uma marca vermelha na bochecha dele, então compreendi o que realmente houve naquele final de semana. Mudei minha resposta:
-Tudo bem! Só vou te desejar boa noite.
-Ah, - ele relaxou – boa noite! - sorriu
-Boa noite! - disse de maneira equivalente
Ele entrou em seu quarto e eu fui pro meu. Tomei um banho e vim escrever aqui.
Estou aqui pensando sobre o que vi no rosto de Makoto. Bem, acho que não foi a trabalho essa viagem, ou talvez, não só a trabalho. E minha intuição diz que é a Kana. Por conta do que o pai de Makoto me confidenciou, do que aconteceu naquele aniversário e também, pelo pouco que vi agora.
Provavelmente, Makoto está saindo com a Kana e logo estarão namorando.
Isso é ruim para mim! Outra intuição me diz isso.
Mas, o que não é ruim para mim sendo escrava?
Terei que esperar para ver.
Agora vou dormir.”

Fechei o diário e liguei a TV para ver um filme qualquer, enquanto o ocorrido do dia veio a minha mente. E veio forte, tão forte que deixei algumas lágrimas caírem pela minha face. Não tardou muito e outros três chegaram e Kazuko, vindo falar comigo, percebeu meus olhos vermelhos.
-Makoto, o que houve?
-Eu ganhei aquela causa que lhe falei.

Ela entendeu e me abraçou.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Capítulo 31 - Festa de Família

Final de semana. Minha folga finalmente.
Kazuko foi colocar Takumi pra tirar o cochilo dele da tarde. Acho que ela acabou dormindo também, não voltou até agora. Aproveitei a ausência dela para ler o diário. Anotações de uma semana inteira depois, cheguei ao dia da festa de aniversário do meu pai.
A partir desse dia que minha relação com Kazuko teve mais uma época conturbada e complicada.
Comecei a leitura.

“Diário,

lembra que eu te disse ontem que íamos a casa do pai de Makoto por que era aniversário dele?
Então, nos arrumamos e saímos.
Chegamos e a casa parecia cheia. O próprio Koishiro nos atendeu.
-Finalmente chegou, filho.
-Feliz aniversário, pai! - falou, Makoto, entregando o presente a ele
-Obrigado! - respondeu abraçando-o
-Parabéns! - falei abraçando e também abraçando
-Obrigado, Kazuko! É um prazer ter você comigo neste dia.
Entramos. Minami e Shiori vieram falar comigo. Imediatamente perguntei por Minori.
-Ela está com o Akira. Nenhum bebê gosta de ficar em um local com muita gente.
-Verdade. - concordei
E como na festa de aniversário do Makoto, não conhecia ninguém ali, exceto por uma pessoa, a ex-namorado de Makoto: Kana.
-O que a Kana faz aqui?
-Você a conhece? - indagou Shiori
-Sim. De uma outra festa,
-Ela não foi convidada pelo Makoto este ano. Sei lá porquê. - comentou Minami
-E o que ela faz aqui? - perguntei novamente
-É amiga da família. Os pais dela conhecem o Koishiro.
-Isso explica por que ela é a primeira namorada dele.
-Mas tem um outro motivo dela estar aqui. Nem faço ideia de qual seria.
-Nosso marido não disse.
No segundo seguinte, vi que Makoto e Kana começaram a conversar.
Eu fiquei sentada com Minami e Shiori. Elas acabaram me questionando como foi a viagem. Não sei se eu deveria contar tudo mesmo, mas acabei fazendo. Sim, falei tudo daquele “casamento”.”

Não, Kazuko, você não devia. Só que já tem tanto tempo, que... Bem, deixa para lá.
A Kana foi a única pessoa que tinha para conversar na festa, por ser a aqui tinha mais afinidade. Foi o que fiz!

“-Ele fantasiou isso mesmo? Sério? - falou Minami
-Fez sim.
-E o que achou?
-Tornou a viagem bem melhor para mim. Ninguém achou que eu fosse a escrava dele.
-E as transas? A mesma coisa de sempre? - perguntou Shiori
-Também ficaram diferentes.
-Diferentes como?
-Como se fôssemos um casal.
-Essa é a história mais maluca de dono e escrava que já ouvi. - comentou Minami
-Mesmo sendo Makoto. Não imaginava que ele fizesse algo do tipo.
-Ele não queria ter uma escrava – falei – para começo de conversa.
Ficou um breve silêncio, até que eu continuei:
-Algumas amigas me dizem que eu tirei “sorte grande” com ele.
-Concordo com elas. - Minami retrucou
-Ele te trata muito bem para um “normal” de escrava. É totalmente diferente do que se passava conosco. -Shiori comentou
-Mas isso pode ser perigo para você.
-Tudo e perigoso para mim, Minami. Mas qual seria dessa vez?
-Você se apaixonar por ele. E é uma situação mais comum do que parece.
-Eu sei. Aconteceu com a minha mãe. Mas pode deixar, tomarei cuidado com isso.
Elas foram comer e me deixaram sentada sozinha. Pude ver todos em suas rodas de conversa e tinha vista privilegiada do meu dono e a ex dele. E o assunto parecia bom, só os via rindo. Eis que Kosihiro chega e fala comigo, apontando para o filho:
-Belo casal, não acha?
-Não devia me perguntar isso. Mas, sim. É um belo casal.
-Discordo. Eu vejo alguém com muito mais potencial bem aqui do meu lado.
-Não diga isso, Sr. Miyasaki.
-Koishiro, Kazuko. Pode me chamar pelo nome.
-Enfim, Koshiro, por que diz isso?
-Você e meu filho se compartam diferente disso. Ainda lembro o quanto ele foi atencioso com você quando engravidou. E eu também sei do que ele preparou para o seu aniversário.
-Sabe que ele fez por pena, né?
-Ninguém dá uma liberdade diurna e uma festa surpresa por mera pena. E também tem essa história da viagem que acabei de escutar.
Cruzei os braços, reprovando aquilo. Ele se defendeu:
-Estava aqui atrás. Desculpe! - então ficou sério – Serei sincero: eu só chamei aqui Kana aqui porque os pais dela e ela me pediram. Ela ainda é apaixonada pelo meu filho e fará de tudo para ficar com ele.
-Só depende dele deixar acontecer ou não. - olhei para ele fazendo careta – Você não vai pedir nada não, né?
-Não! Sabe, eu quero muito que meu filho tenha logo a família dele. Mas o via preocupado com a carreira e totalmente desligado da vida amorosa. Ele é jovem e não estava aproveitando a juventude dele. Adiantou os estudos e começou a trabalhar cedo, porque queria ter a própria vida. Ele já começou essa conquista e já se sustenta. Eu me orgulho disso. Porém, não via o meu filho feliz, a carreira dele é desgastante e cansativa. Ele precisava de uma válvula de escape. Foi por isso que aconselhei-o a comprar uma escrava. Agora eu percebo que foi uma das melhores coisas que disse para ele fazer.
-Não entendo. O que eu tenho a ver com ele e a Kana conversando agora? E ela estar ainda interessada nele?
-Você faz bem ao Makoto, Kazuko. Isso que quero dizer. - respirou fundo antes de prosseguir – Ainda lembro de quando ele e a Kana namoraram. Meu filho só viva estressado e impaciente. Ela é possessiva e manipuladora. Eu sei que ela não é uma boa pessoa para ele. É coisa de pai. Acabei ficando protetor assim depois que a mãe dele morreu. - sorriu – Se eu pudesse escolher uma pessoa para ficar com Makoto, seria você, Kazuko.
Eu fiquei sem reação. Tentei falar algo, mas a boa abriu sem emitir som. Koishiro riu.
-Perdoe se te assustei! Estou falando o que penso. - ainda comigo paralisada, continuou – Não vai ficar querendo assistir isso... Vá para o quarto com a Minori, talvez ela esteja precisando de ajuda.
Segui a recomendação dele. Minori brincava com Akira quando entrei.
-Kazuko, nem sabia que estava aqui. Tudo bem?
-Sim, Minori. Vim te fazer companhia.
-Que bom. Estou cansada desse isolamento aqui. - sorriu – Pode tomar conta do Akira enquanto pego algo para comer? Se não for incômodo.
-Pode ir.
Ela agradeceu. Então fiz o pequeno gargalhar até o retorno dela.”
O que eu tanto falava com a Kana naquela noite?
Lembrávamos dos velhos tempos. Do colégio, nosso namoro e ainda mais da infância. Eram histórias memoráveis e engraçadas.
Depois de um bom tempo, quando Kazuko saiu do meu campo de visão, Kana começou a puxar outros assuntos. E sim, me seduzindo. Fomos para o lado de fora para termos mais privacidade. Acabou rolando apenas alguns beijos.
Kazuko nunca soube disso e prefiro que não saiba. É uma parte horrível da minha vida.
Se bem que deve ter óbvio para ela que houve alguma coisa.

“-Parece que estão se divertindo e muito. - disse quando voltou – Então, tava gostando da festa?
-Na verdade, não. Prefiro ficar aqui. Mais quieto e com um bebê mais simpático que muita gente lá fora.
No instante seguinte, Kyosuke, que não tinha visto até então, abriu a porta e veio me abraçar.
-”Kasugo”, que “saldade”.
-Assim que eu falei para ele que estava aqui, quis vir te ver. - comentou Minami
-E onde estava que demorou tanto? - perguntei para ele
-Eu atava vendo desenho.
-Que legal! Qual era?
-A magia para voar. - respondeu
-Já vi esse. É com as crianças que tem que salvar o príncipe?
Ele assentiu, sorrindo.
Assisti a esse filme numa tarde tediosa e pós-serviço na casa de Makoto, junto com a Keiko, inclusive.
E nós quatro – eu, Minami, Minori e Shiori – junto com as crianças ficamos ali, com mais privacidade e silêncio. Repeti a história da viagem todinha para a Minori, que teve reação idêntica das outras.
Logo Koishiro nos chamou para cantar parabéns. Saímos logo e ele foi chamar o filho, que estava do lado de fora com a Kana. Isso é um mau sinal! Ainda mais pela boca dela estar com o batom borrado e a dele estar suja do mesmo.”

Eu disse que era óbvio. Haha

“Todos cataram e Kyousuke apagou a vela junto com pai. Após isso, comemos e as pessoas começaram a ir embora.
Permaneci sentada no sofá, brincando com as crianças. Kana saiu logo com os pais e Makoto se aproximou:
-Se divertindo?
-Sim. Sabe que gosto dos seus irmãos... E de crianças.
Ele sorriu, concordando.
-Hora de irmos. - falou em seguida
Despedimo-nos de todos e saímos. E ele resolveu me sondar na volta:
-Eu te vi falando com meu pai. O que era?
-Ele estava contando sobre quando namorou a Kana.
-Nosso namoro era um pouco difícil. Porque a Kana é assim.
-Mas ficaram mais tempo conversand. Foi só isso mesmo?
-Sim! Além de que ele ficou me explicando os preparativos da festa.
Eu não podia, nem na vida, nem na morte, falar sobre aquilo que ele me contou. São coisas que entram em um ouvido e saem pelo outro.”

E também não sabia disso até hoje. Meu pai já estava me shippando com a Kazuko.

“Puxei outro assunto:
-E divertiu-se hoje?
-Claro. É sempre bom lembrar do passado, mesmo que ele tenha sido complicado. E você, Kazuko?
-Fazer crianças rirem é algo que me faz bem.
-Fez companhia as minhas madrastas então?
-Sim. Elas sempre ficam um pouco isoladas nesses eventos e como eu também, me aproximo delas.
-As pessoas ainda não compreendem a relação das três com o meu pai. Elas são ex-escravas e esposas, dois tabus.
-E o que você pensa, Makoto?
-É só diferente. Mas todos eles se amam e se entendem. Para mim, pouco importa. Desde que estejam felizes!
-Concordo! - sorrindo
Chegamos a casa e fomos dormir. Makoto nem me chamou para ir ao quarto com ele. Deu-me boa noite com um beijo na testa.
Isso é um outro péssimo sinal!”


Cansado de ler, olhei o relógio. Kazuko já dormira demais, então eu fui acordá-la.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Capítulo 30 - Viagem à praia (Parte 3)

Fiquei muito ocupado no trabalho no dia seguinte, tive que reler muitos processos e fazer petições. Então, só pude ler o diário quando voltei pra casa. Kazuko se prontificou em ajudar Keiko a terminar o jantar e Takumi brincava sentado no tapete da sala. Em alguns momentos, engatinhava para pegar o brinquedo que ele jogava para trás.

Não pude evitar de rir. Era algo engraçado e muito fofo!

Estava alternando minha visão entre as linhas do diário e Takumi, me sentindo um camaleão.

E comecei a ler a última anotação da viagem.
 

"Querido diário,

Acabamos de chegar da viagem, a volta foi tão longa quanto a ida. E na véspera dessa volta, cheguei muito cansada e dormi profundamente.

Makoto resolveu ser o meu marido no último dia que passamos lá. Acordei com o café da manhã na cama e com ele me chamando carinhosamente. Eu resmunguei um bom dia.

-E café na cama? - completei.

-Você merece, querida.

Fiz careta.

-Só não me chame assim, por favor.

-Mas esses vocativos também fazem parte.

-Eu não gosto deles.

-Como quer que te chame então?

-Kazuko! Eu te chamarei pelo nome também.

-Ok! - sorriu - Agora vamos comer logo que eu tô com fome.

Comemos e ficamos em casa pela manhã. Conversando e acabou rolando uns amassos também. Houve um momento em que ficou sentado e encostado na cabeceira da cama, comigo em cima dele. Estávamos vestidos tá? Fiquei impressionada, porque, normalmente, até esta altura já era para termos transado. Não que eu não quisesse, mas é que normalmente é assim.

Ele soprou minha franja, o que me fez sentir cócegas. Depois colocou-a para o lado e sorriu para mim. Isso era realmente um comportamento de casal, porque eu sorri em resposta. Em seguida, ele me jogou na cama e continuamos. E ocorreu o que queríamos.

Fizemos o almoço juntos e comemos. Durante a tarde, fomos mais uma vez à praia. Só que em vez de ficarmos sentados, resolvemos caminhar com os pés na água e de mãos dadas. Vimos muitas pessoas, crianças correndo, fazendo castelos de areia e catando conchas. E me permiti fazer isto também, era uma mais linda que a outra. Só restou a Makoto rir.

-Quando eu era pequeno fazia isto também - falou - E levava para casa.

-Ou seja, você está me chamando de infantil. - ironizei.

-Não. - se abaixou ao meu lado - Só me lembra minha infância. - pegou uma - Aqui, guarde essa.

Continuamos andando e as conchas iam para a bolsa que carregava, com um lanche. Ele me disse que iríamos a outro lugar. Chegamos à "ponta" da praia, onde era uma colina, subimos por uma trilha feita pela passagem de outras pessoas por alí. Não andamos muito até a descida começar e no final havia uma outra praia, vazia. Ela era muito mais bonita do que estávamos antes. Bem menor, sendo circundada por algumas colinas em volta dela. Era um trecho de areia que se juntava com o mar na ponta.

Chegamos e adorei ver as ondas batendo na praia. Sentamos e logo fomos dar um mergulho. Eu me senti bem mais à vontade por estarmos apenas nós dois.

-Gostou daqui? - Makoto indagou.

-Sim! - sorri - Vamos ficar até...

-O pôr-do-Sol. - completou - Ele é lindo aqui!

-Mas como iremos embora? Ficará escuro.

-Tem uma saída por ali quando a maré abaixa. - apontou para um dos lados, que dava na praia de onde viemos.

Alternamos entre a areia e a água, beliscando a comida que trouxemos. Então, Makoto me roubou um beijo, deitando-me sob a toalha estendida. Sim, era um outro sinal.

-Aqui? - soltei.

-É! - ia falar "alguém pode ver", mas ele me interrompeu - Não vem ninguém aqui, ainda mais essa hora.

Não tive como retrucar. A parte de baixo do meu biquíni foi tirada. Foi um pouco rápido, mas adrenalina e tensão de ser pega deixou diferente e eletrizante. Makoto acabou jogado em cima do meu corpo e arfando de novo. E me esmagando com o peso dele.

-Pode sair de cima de mim?

-Abre um espaço então. - reclamou

Ajeitou-se na toalha que era grande o suficiente para os dois. Soltou em seguida:

-Desculpe por isso, Kazuko.

-Por que pede desculpa por realizar outra fantasia sua?

-Eu fico com peso na consciência depois que faço.

-Ei! Eu estou aqui para isso ou não? Lembra da promessa do casamento?

Ele assentiu e mandou eu me vestir.

-Mas tire a parte de cima. - terminou colocando a bermuda e desamarrando o meu biquíni

Eu mal tinha me acostumado a usar duas peças e agora tinha que usar apenas uma. E não é algo confortável quando seus seios ficam sacudindo fora de controle. E sim, ele fez eu ir na água depois disso. Bem ou mal, foi divertido.

E o Sol resolveu encontrar com as águas e começar a dar lugar as estrelas e a Lua. Makoto e eu sentamos para assistir. Não pude deixar de me lembrar em que situação estávamos quando vimos o Sol se pôr da última vez.

-Da última vez que fizemos isso, estava grávida ainda.

-Sim. - concordou, me abraçando - Eu sei que fica se culpando pelo que aconteceu, só que acho que não era para ser, Kazuko. Eu fico imaginando como ficariam as coisas entre nós depois que o bebê nascesse.

-Mesmo assim, você não entende o que eu passei quando perdi. Sei que era um filho que não queria, mas era meu.

-Nosso, Kazuko. - me corrigiu - Nunca farei ideia disso, mas estarei aqui, para o que precisar."

 

E eu mantenho esta minha palavra até hoje.
 

"Sorri, agradecendo. E não conversamos mais até retornarmos à casa onde nos hospedamos.

-Gostou do passeio?

-Sim, Makoto. Mesmo ficando seminua numa praia deserta.

Rimos. Ficou silêncio e nos olhamos. Nos atracamos em um beijo, que acabou nos levando até o sofá. E foi ali mesmo. Quando acabou, ficamos largados, nus, tentando recuperar o fôlego. Demorou um pouco para tal. Comemos algo, tomamos banho e fomos dormir.

-Sabe que voltamos amanhã, né? - Makoto perguntou

-É amanhã, já? Perdi a noção do tempo.

-É bom viajar, né?

-Sim! Eu queria ficar mais tempo.

-Eu também. Mas meu pai alugou a casa pra amanhã. Podíamos até ficar, mas eu quis que nessa viagem fosse apenas nós dois. Alias, o aniversário dele está chegando.

-E fomos convidados.

-Intimados, na verdade. Família é assim!

Eu ri. Assim, nos viramos e dormimos.

Acordei com a luz me perturbando e Makoto despertou quase que ao mesmo tempo praticamente. Tomamos um café rápido e saímos. Ele colocou música e passamos a volta cantando no carro. Pelo menos, até chegarmos aos limites de Ioma.

O carro ficou quieto e uma inquietação se instaurou em mim. Senti que a "fantasia" estava chegando ao fim. Eu ia me divorciar de Makoto e voltaria a ser a Kazuko escrava.

Finalmente chegamos e subimos com as malas para o apartamento. Ele abriu a porta e disse:

-Viajar é bom, mas pisar em casa é melhor ainda.

Eu não consegui conter a breve e grande chateação e logo ele notou, simplesmente por dirigir o olhar para mim.

-Que foi, Kazuko?

-Agora tudo volta ao normal, não é?

-O que está querendo dizer?

Levantei a mão esquerda, mostrando a aliança que ele colocara no meu dedo anelar dias atrás.

-Podemos prolongar isso mais um pouquinho. Até amanhã!

-Não é esse o problema.

-E qual o problema então?

-Tudo. Tudo é o problema."



Eu entendi imediatamente o que ela quis dizer. Mas não poderia resolver imediatamente.

 
"-Sabe que não posso fazer nada quanto a isso.

-Eu sei. E você também não o quer. - falei tentando conter as lágrimas que insistiram em vir e não conseguia.

Makoto não respondeu. Secou meu rosto e pegou na minha mão. Deu-me um beijo calmo. Levou-me para o quarto em seguida.

E aconteceu igual na primeira noite da viagem. Sem pressa, sem conversa e sem aquela de dono e escrava. Era só o Makoto e a Kazuko.

Tomamos banho juntos e comemos depois. Então, vim para o quarto para poder escrever. Pelo menos, tenho esses momentos de privacidade, porque ele me dá. Sabe que preciso disso.

E nós já nos "divorciamos", as alianças estão guardados no escritório.

Agora voltarei a fazer companhia a Makoto na sala.

Até!"



Fechei o diário e fui acudir Takumi, que por muito pouco não bateu com a cabeça na mesinha de centro. Emendei isso com uma brincadeira e vi o seu sorriso e ouvi sua risada.

Fiquei cuidando dele até a hora do jantar.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O Capitão e o Marujo



Música-tema: (Santiano - 500 Meilen) https://www.youtube.com/watch?v=TfeIcsVSI10

Mais uma bela manhã de Sol no cais do porto. O meu navio, Queen Andromeda, está recebendo mais um carregamento para a Europa. Eu estou nas Américas deixando um e pegando este outro. Eu sou um navegante que trabalha no fluxo Europa-Américas, o ano inteiro, incluindo os feriados e até o meu próprio aniversário.
Eu não tenho família, nem filhos e nem mais a minha mãe, que morreu pouco depois que completei dezoito anos. A minha vida é esta embarcação, tudo o que fui e sou hoje foi graças a Andromedazinha, como a chamo carinhosamente. Outra coisa a revelar sobre mim é que eu sou gay. E já sofri e adquiri um forte trauma por conta disso. Eu me acho tão homem quanto qualquer hétero. Ser gay não me faz menos homem, apenas diferente.
Eu falei do meu trauma não é? Pois é, eu já fui passivo, mas totalmente a força.
Quando minha mãe faleceu, decidi que seguiria a vida no mar, assim como o meu pai, que abandonou a mamãe assim que soube de mim. Não era o sonho de reencontrá-lo, mas de desbravar novos horizontes e conhecer novos lugares, já que vivi na mesma cidade durante todo aquele tempo. Naquela época já sabia o que sentia, me apaixonara algumas vezes, mas nada demais. Apenas coisas platônicas... Porque todos eles eram héteros!
Com meros dezoito anos, eu, Steffen Frey, alemão, pele clara, cabelos loiros e olhos verdes, virei tripulante de um navio, o Ressaltans. Era bem mais franzino do que sou hoje. Eu tinha apenas 1,70m de altura e era bem magrinho. Estes detalhes foram os suficientes para um dos marujos mais velhos se aproveitar de mim. Por muitos anos, eu fui abusado por esse cara. Não podia falar com ninguém sobre isso, porque eu cai na laia dele e acabei me apaixonando e também tinham as ameaças que ele fazia. Eu fiquei sem saída e me afundava cada vez mais naquele mar de problemas. Mas durante esse tempo, eu ganhei um pouco mais de altura e músculos por causa do trabalho pesado. Nunca me equiparei a força dele, então toda vez que tentava me defender ou revidar, acabava piorando mais a situação.
Até que um dia, em um dos portos que passávamos frequentemente, eu recebi a proposta de tripular o Queen Andromeda, vinda do próprio capitão do navio: Tim Schmitt. Em um dos bares perto do cais acabei contando pro cara toda a minha história e ele se sensibilizou. Disse que o único jeito seria eu trocar de embarcação e finalmente ter distância daquele que me perturbava. Naquela noite mesmo zarparia com o navio dele. Peguei as minhas coisas e quando estava chegando ao Andromeda, o meu ativo, meu dono, apareceu e perguntou o que eu estava fazendo carregando minhas coisas para outro navio. Simplesmente respondi:
-Estou te deixando. Cansei de todas as suas chantagens, cansei de você!
-Mas achei que me amasse.
-Eu amava, quando tinha dezoito anos e era bobo e inocente. Tenho 25 agora, cresci e amadureci.
-Não pode simplesmente ir saindo assim. E quanto ao nosso capitão? E a mim? - falou agarrando meu braço
-Já falei com o capitão e ele entendeu perfeitamente a situação, agradeceu o bom trabalho que fiz a ele, deu o meu dinheiro e pude sair.
-Não respondeu a outra parte...
-Respondi sim! Cansei de você, simples assim. Estou seguindo outro caminho.
-Não pode fazer isso.
-Posso sim! E estou fazendo...
-Seu filho da puta! - me deu um soco, cai no chão – Depois de tudo o que fiz por ti.
-O que? Tem sete anos que eu sou marujo, não subi posto algum nesse tempo. E olha que eu trabalhei muito.
-É assim então? - bufou
Ele me deu mais alguns socos antes de me deixar deitado no chão de cimento. Estava ferido fisicamente, mas finalmente meu coração se curara e eu tinha a minha liberdade de volta. Sentiria dores no corpo por uns dias, contudo dormiria bem depois de anos. Aproveitar o meu sono, sem ter ninguém querendo te comer no meio da madrugada.
Fui muito bem recebido pelos meus novos companheiros de viagens. O trabalho era praticamente o mesmo, eu que era outra pessoa. E diferente da outra vez, meu trabalho foi reconhecido. No decorrer dos anos fui subindo de patente, até chegar no posto mais alto antes do capitão.
Eu tinha completado 30 anos pouco antes disso e estava muito feliz. Só que em seguida outra coisa começou a preocupar todos no navio. O capitão adoeceu e era muito grave e ele sabia disso. Sabia que não duraria mais muito. E como ele também não tinha família, deixou o Queen Andromeda para mim, porque eu me tornei um filho para ele e essa era a maior retribuição que ele poderia me dar.
Foi assim que me tornei o Capitão Frey do Queen Andromeda. Só não sou mais tão jovem quanto antes, estou com 35 anos agora.
E naquela manhã, além do descarregamento dos produtos que trouxemos da Europa, eu também estava contratando novos tripulantes. Alguns saíram porque queriam outras coisas na vida.
E de repente, ele apareceu. Um rapaz, na casa dos vinte anos, com um corpo um bocado definido e só um pouco menor do que eu, correndo e logo chegou para falar comigo.
-Senhor, ainda estão aceitando novos tripulantes?
-Sim! - respondi sorrindo, acabei olhando ele de cima a baixo
-Ah, que bom! - coçou a cabeça
Ele me parecia ser americano, pele clara, cabelos castanhos e olhos azuis. Fizemos os tramites legais e ele era oficialmente um marujo do Queen Andromeda.
Eu não entendia o que estava acontecendo comigo. Havia anos que alguém não me chamava atenção como ele. Depois daquele brutamontes, me desliguei disso. Só dava mesmo algumas descarregadas em festas e só. Nunca me envolvi de novo.
O nome dele é Bryant Vicent Kelly, de 23 anos, nascido nos Estados Unidos. Só isso o que sei dele até agora.
Mais tarde, na minha cabine, me peguei olhando a foto que ele me deu para fazermos o contrato. Eu me sinto atraído por ele e não consigo explicar isso. Será que todo mundo sente isso? Uma pessoa que mal conheceu e já chamou a sua atenção? A única coisa que se quer é estar do lado dela e saber mais sobre ela, para se aproximar.
Meu melhor amigo, Torsten Reinhard , atual “vice do navio”, entrou e me pegou no flagra.
-Olhando esta foto com tanto afinco. Tem algo errado?
-Não. Não há nada errado. - desviei o olhar
-Não minta. O rapaz te chamou atenção. - ele era o único que sabia ali que era gay
-Não sei explicar isso.
-Não pense na explicação. Vá atrás dele!
-Não sou desesperado a investir tão cedo assim. Mal o conheço.
-Mas estamos na época de adaptação dos novos marujos. Então terão aquelas reuniões.
-Ah sim! Elas são uma boa oportunidade.
-Alias, o novo carregamento já está todo a bordo. Podemos zarpar imediatamente.
O Sol já iria se pôr, minha hora preferida para partir. Fui a frente para falar com a tripulação.
-Senhores, excelente trabalho que fizemos hoje. Haverá uma festa mais tarde em comemoração. - gritos de alegria – E os novos marujos: sejam bem-vindos ao Queen Andromeda. E a festa também será comemoração da chegada de vocês. - mais outro grito em coro – Agora, hora de partirmos rumo a Europa.
Finalmente saímos do porto, navegamos um pouco e ancoramos alguns quilômetros depois. Havia uma festa e todos os tripulantes participariam. O convés estava lotado, lotado de zueira e de bebida. Era uma grande reunião.
Eu sou o tipo de capitão que é amigo de todos do navio, então conversei um pouco com cada um deles. Cantei ao som do violão e fiz umas danças malucas naquele convés. Essas nossas festas parecem de piratas.
Mas havia um que estava isolado em um canto, apoiado numa das bordas, observando o céu noturno. Era aquele que me chamara atenção no momento em que olhei para ele. Não resisti ao impulso precoce e fui falar com ele.
-O que faz aqui sozinho, Mr. Kelly? - tive que usar o pronome de tratamento certo
-Ah, Capitão Frey, me desculpe, sei que devia estar com outros.
-Você não respondeu a minha pergunta.
-Estava pensando nessa nova fase da minha vida que acabei de começar. Tudo pelo que passei e deixei para trás.
-O que quer dizer com isso?
-Eu tinha uma noiva, mas ela morreu em um acidente de carro. E, bem, eu chateei meus pais por causa de uma coisa e eles não querem ver mais a minha cara.
-E que coisa seria essa? - falei me apoiando de costas para o mar, para poder olhar melhor para ele – Desculpe se estou sendo inconveniente te perguntando um pouco demais.
-Tudo bem, capitão. Eu fico feliz que tenha se interessado por isso, eu realmente nunca falei isso a ninguém. É meio que uma coisa engasgada.
-Diga!
-I like boys! - ele foi direto, falando na sua língua mãe e na qual conversávamos – Não me lembro quando descobri isso, mas eu sempre lutei contra, tanto que até noivei e ia me casar. Minha noiva era uma grande amiga e a única que sabia até então. Ela me ajudou a ter esse namoro de fachada, para mim e para ela. Só que, quando ela se foi, eu surtei e percebi que não poderia continuar essa mentira sozinho. Contei aos meus pais e fui expulso de casa. Vaguei por uns dias e descobri que carregamentos chegariam ao porto e decidi que queria ser um homem do mar. Foi assim que vim parar aqui!
Só pode ser um sonho, ele é gay também. A oportunidade para investir subiu bastante, mas não queria me mostrar atirado.
-Uma história deveras comprida, assim como a minha. Vamos voltar e beber um pouco mais.
-Claro!
Depois de mais algumas cervejas, eu estava bem, mas Bryant estava totalmente bêbado. Os outros começaram a voltar a suas cabines. No final das contas ficamos só eu e ele no convés, falando um bocado de merda. E em um de seus momentos de porre, ele soltou:
-Sabe, Capitão, eu te achei tão sexy assim que te vi. - e se atirou em mim
Ele tava... Me cantando? De um modo bem estranho, mas era óbvio o efeito da bebida. Não resisti aos meus desejos quando vi aqueles olhos azuis com a franja caida entre eles e acabei beijando-o. Um beijo calmo, que havia anos que não dava em ninguém. Ele pareceu corresponder se enlaçando mais ao meu corpo, praticamente pulando no meu colo.
Seu corpo era só um pouco menor que o meu, então o abracei-o com vontade e trocamos algumas carícias por uns minutos. Foram apertos ali e cá e alguns beijos no pescoço. Ele gemia baixo e eu sentia a minha calça ficar mais apertada. Então, sussurrou:
-Capitão, você que ir para o quarto?
Uma pessoa normal responderia sim imediatamente. Mas, eu já estive no lugar dele e sei bem o que poderia acontecer, acabaria perdendo o meu controle. E ainda tinha outro detalhe, ele estava bêbado. Sinto-me mal em transar com alguém nesse estado.
-Acho que está na hora de você dormir, Marujo Kelly.
Sai carregando-o ao seu quarto. Os seus colegas dormiam, coloquei ele na cama.
-Fique aqui comigo, Capitão.
-Eu... Não... Posso. - gaguejei sentindo “ele” latejar de desejo
Com muita força de vontade, voltei ao convés e me encontrei com Torsten lá.
-Por que veio daquele lado? Sua cabine fica do outro.
-Eu sei. Fui deixar um tripulante bêbado na cama.
-No duplo sentido? Não acredito que fez isso.
-Eu não transei com ele! - gritei – Mas fiquei na vontade. - falei mais baixo
-Perdeu uma oportunidade e tanto. Ele é hétero!
-Na verdade, não. Ele usou essa noiva de fachada, ele é gay como eu.
-Ora, então ainda há uma chance. E com certeza você vai correr atrás dele.
-Sim. Só quero conhecê-lo um pouco melhor. Quero que as coisas sigam um fluxo natural, ao contrário do que houve comigo na idade dele.
Despedi-me e fui ao meu quarto. Tomei uma ducha fria e tive que bater uma para aliviar o tesão que Bryant Vicent deixou em mim. Eu fantasiei com ele, não pude evitar.
No dia seguinte, seguimos viagem com maioria dos tripulantes de ressaca.
Os dias foram se passando, tudo acontecendo em uma normalidade que já era bem comum. Um dia, tarde da noite, após mais uma polução noturna por causa de um sonho com Bryant, fui dar uma volta. Com quem eu me encontrei? Sim, o próprio.
-Capitão Frey, com insônia também?
-Sim. Eu tive um sonho!
-Foi ruim?
-Nein. - eu tinha essa mania de responder em alemão as vezes – Ele não ser verdadeiro é que é ruim.
-Adoro seu sotaque e quando você fala alemão. Tão sexy! - ele sorriu e depois ficou com vergonha de ter falado aquilo, mas nem comentei nada
-E o que está achando da vida do mar?
-Melhor do que imaginava. Poderia viver assim para sempre.
-Eu pensei a mesma coisa com a sua idade e aqui estou eu.
-Contei a minha história a você na primeira noite, quero saber da sua. Pode contar!
-Ja!
Contei toda a história para ele, inclusive revelando o detalhe de eu ser gay. Depois, ele perguntou:
-Capitão, aconteceu alguma coisa entre nós na minha primeira noite aqui no navio? Eu me lembro de termos nos beijado e depois você me levou ao meu quarto, mas eu não sei o que aconteceu lá.
-Não aconteceu nada. Só te deixei na sua cama e sai.
-Ah... - ele soltou com um ar de tristeza
-Não que você não tenha pedido para eu ficar. Só que você estava muito bêbado.
-Não quis abusar de mim né? Achei que fosse esse tipo de pessoa.
-Porque aconteceu a mesma coisa comigo e eu passei anos sendo chantageado por um filho da puta.
Ficou um silêncio mortal por alguns segundos enquanto trocávamos olhares. E mais um impulso resolveu me atacar... E lhe roubei um beijo ardente.
-Capitão... - ele sussurrou quando nos separamos
-Fale, marujo Kelly. - falei em mesmo tom
-Por que não fazemos o que queríamos naquela noite? Eu estou sóbrio agora.
-Claro! - sorri, dando um riso no canto da boca – Vem, vamos ao meu quarto. Lá teremos mais privacidade.
Peguei na mão dele e o arrastei comigo. Ele vinha atrás e parecia encabulado, olhando para os lados o tempo todo, achando que alguém poderia aparecer a qualquer momento.
-Fica sussa, cara. Aqui é o lado das maiores patentes e eles dormem que nem pedra.
Ele só riu!
-Fica sussa?! Gostei disso, capitão.
Chegamos ao meu quarto, entramos e eu tranquei a porta.
-Enfim sós!
Ao ouvir isso, ele veio para cima de mim e começamos uma série de beijos e carícias. Eu adorei dar alguns beijos no seu pescoço, enquanto ele gemia baixo.
-Capitão... - disse coloca a sua mão na região protuberante da minha calça – Eu quero... Dentro... De mim!
-Tudo em seu tempo. Acha que eu também não quero?
-E me chame de Bryant, capitão. É meu nome esqueceu?
-Não. E se for assim, eu sou Steffen. Sem formalidades!
Então, eu o joguei na cama. E continuamos nos beijos e ia desabotoando cada um dos botões de seu pijama. Quando estava completamente aberto, passei minhas mãos por seu peito magro e ele gemeu baixo. Ajudou-me a tirar a minha blusa e eu arranquei a dele. Ele admirou o meu físico e a minha tatuagem de uma âncora no antebraço direito, acariciando-me.
Logo tirei a calça dele e também a cueca dele. Bryant estava nu diante de mim. O tamanho dele era só um pouco menor que o meu, não que eu seja pirocudo. Tô na média! Ele achou que ficaria pelado também, mas se desesperou quando viu minha boca chegando perto do seu membro.
-Steffen, não precisa fazer isso. - falou tentando afastar o quadril, mas segurei
-Mas eu quero fazer, Bryant. - olhei para ele – Aliás, posso te chamar só de Bryan?
-Pode, Stef! - respondeu sorrindo e cortando meu nome também
Delicadamente comecei o sexo oral nele. Chupava, mordiscava, engolia, de um tudo um pouco, com pouca ou mais intensidade e sendo acompanhado pelos sons que ele emitia. Parecia que nunca tinha recebido algo assim, ele ficou excitado rápido e chegaria ao ápice logo, porém parei antes disso.
-Por que parou? - ele reclamou
-Você está quase gozando. Eu não quero que se divirta sozinho! - soltei com um sorriso malicioso
Levantei da cama e tirei minha calça e cueca, deixando-as pelo chão da cabine. Minha situação tava crítica, talvez não aguentaria muito tempo.
-Quer que eu faça em você também, Stef? - indagou se apoiando nos cotovelos para me ver
-Não precisa! Senão gozarei forte na sua boca. Muito tempo na seca.
Voltei a cama, dando-lhe um beijo com vontade. Ele inconscientemente já abriu as pernas para mim, me querendo e muito. Estiquei-me até a gaveta do criado-mudo, ao lado da cabeceira da cama e peguei o lubrificante. Coloquei uma quantidade boa na mão, dividindo um pouco entre a entrada de Bryan e meu pênis. Abri um pouco o espaço usando primeiro um dedo, passando para dois, até o terceiro. Ele só me observava e tinha um olhar e rosto totalmente envergonhados e cobertos de prazer ao mesmo tempo. Resolvi parar com o sofrimento dele e também com o meu e penetrei. Comecei devagar para ele se acostumar e não sentir tanta dor ou incômodo. Só depois que aumentei a velocidade. Foi então que ele danou a gemer e eu arfava. Aproveitei para masturbá-lo um pouco no meio das estocadas.
-Stef... Stef... Capitão! - foi o que ele disse antes de gozar, junto comigo, porque não aguentei ouvi-lo dizendo isso
Eu me joguei sob o peito magro dele e senti o suor dos nossos corpos nos fazerem grudar um ao outro. Ele passou os dedos nos meus cabelos, enquanto recuperava o fôlego. Não trocamos uma palavra por um tempo, até que Bryant finalmente falou.
-Foi tão bom, Capitão... Stef. - sorriu
-Também gostei, Bryan. Mas só quero uma coisa agora: Um banho. Vamos?
-Sim!
Minha cabine é suíte, então só acendi a luz do banheiro e fomos para lá. E essa cabine é tão grande que eu tenho uma banheira, eu a enchi e entramos, ficando cada um em uma ponta. Bryant relaxou o corpo e estava aproveitando a água quente. Era uma visão maravilhosa!
-Por que os chuveiros dos vestiários não tem a água assim tão quentinha?
-Porque senão os chuveiros seriam mais disputados do que já são. E ninguém morre com banho de água morna. Mas, se você quiser tomar um banho quente, só vir aqui.
-Depois da foda, não é Capitão?
-Seria melhor que sim, mas se quiser só tomar um banho, tudo bem.
E ele riu.
-Que foi?
-Você é engraçado, Stef. Achei que fosse mais carrancudo e mandão, mas eu vejo que isso é só fachada.
-Eu só tenho cara mesmo. Eu fiz essa máscara pois já sofri muito por ser quem eu sou.
-Gay?
-Ja! Aquilo que te contei.
-Eu nem consigo pensar o quanto sofreu durante todos aqueles anos. Eu achava que sofria, mas com certeza a sua dor foi pior. Perdeu a sua única família e ainda foi abusado por muito tempo.
-Eu já superei. Agora eu sou feliz... Bom... Quase.
-Por que “quase”?
-Eu não me apaixonei novamente. Não consigo! Eu tenho medo de me envolver demais e acontecer igual àquela vez. Acho que eu seria feliz se encontrasse alguém para amar.
-A gente poderia tentar, capitão. - falou se aproximando de mim e sentando na minha frente, instintivamente abracei-o
-Poderíamos. - retruquei e completei em seguida – Teve uma coisa que não lhe disse: Realmente senti algo estranho quando te vi no cais, eu me senti atraído por você. Eu ainda não entendo isso, ainda estou tentando entender. E foi por muito pouco que não fizemos na sua primeira noite na embarcação.
-Também me senti atraído assim que te vi, Steffen. Acho que eu deixei isso bem claro quando bebi um pouco demais... Eu lembro!
Não pude evitar de rir e concordar. Bryan se virou, me beijando em seguida. Dava para perceber que ele queria uma segunda rodada e eu também.
-Vamos nos secar e ir para a cama. - falei
Sai primeiro e fiquei esperando sentado. E acabou acontecendo de novo e foi tão boa quanto a primeira. Acabamos adormecendo em seguida e só me dei conta disso quando alguns raios de sol atingiram meu rosto. Resmunguei e abri os olhos, me vi nu e com Bryant adormecido de bruços, também nu, do meu lado. Ele tinha uma carinha de anjo e aparentava sonhar. Eu fiquei com muita pena de acordá-lo, mas tive de fazê-lo.
-Bryan... Bryan... - cutuquei nele – Já amanheceu! Precisamos nos levantar, temos trabalho para hoje.
Ele reclamou alguma coisa que não entendi e virou pro outro lado. Chamei-o novamente, só então se levantou, e falando meio rouco:
-Que foi?! - e me viu – Ah, capitão, bom dia! - sorriu sonolento
-Bom dia!
-Já amanheceu né? - assenti – Não era para eu estar aqui, eu apaguei. Desculpa!
-Não precisa se desculpar, eu também dormi. Vamos nos trocar!
Levou menos de meia hora, contando com o tempo do banho. Mandei Bryan sair primeiro e eu sairia uns cinco minutos depois para evitar qualquer coisa. Pela hora todos estariam no refeitório para o café da manhã.
Sai e me encontrei com Torsten na mesa e ele me fez uma careta assim que me viu e comentou:
-Bom dia, Capitão. - baixou o tom da voz para um sussurro – Eu ouvi o que aconteceu no seu quarto. Quem era?
Bryant estava algumas mesas perto dali e ele olhou diretamente para mim quando desviei o olhar do meu amigo. Foi a resposta que ele precisava!
-Foi exatamente o que supus. - soltou
-Por favor, você sabe que isso é segredo. Não conte a ninguém!
-Minha boca é um túmulo e você sabe disso, Stefen.
Pela proximidade, podia ouvir os colegas de Bryan falando com ele:
-Você sumiu, onde esteve?
-Acordei mais cedo. Simples assim!
-Já apareceu de banho tomado e nós viemos do vestiário agora. - ele não devia ter lavado o cabelo
-Eu molhei o meu cabelo com uma garrafa de água.
Para de falar, você está se afundando nisso. Não tenta enrolar eles.
-E cadê a garrafa?
Ele titubeou, sem resposta.
-Onde você esteve então? - indagou um, bem firme
-Ah... Eu... Eu...
Eu ia ter que resolver aquilo e rápido.
-Ele realmente se levantou mais cedo que o de costume. - Respondi, me levantando e indo em direção a eles – Eu estava no convés e o vi cair no mar por conta de um balanço forte de uma onda. Tive que salvá-lo. - bati no ombro dele e ele me olhava perplexo, mas logo entendeu
-É, eu levantei e fiquei olhando o mar no convés, até que eu cai. Sorte que o Capitão me salvou. Ai me sequei, troquei-me e vim para cá. - concordou sorrindo e aquilo fazia sentido com a troca de roupa
-Você precisa aprender a se segurar para que isso não aconteça de novo.
-Sim, Capitão, pode deixar!
Eu me afastei e a situação se resolveu, ainda bem. Tudo correu normalmente a partir daí. Exceto pelo fato de, no meio da tarde, quando estava na cabine de controle controlando as manobras do navio e o Marujo entra, me assustando. Sorte que estava sozinho!
-Stef, obrigado por mais cedo. Eu realmente não sabia o que fazer.
-Sem problemas, Marujo. Mas você podia ter esperado mais para me falar isso.
-Perdoe-me, não consegui. - ele olhou para o mar – A visão daqui é tão bonita!
-Eu concordo. É meu lugar favorito para observar os azuis dos céus e mares se juntarem.
Ele ficou mudo.
-Veio aqui só para me agradecer?
-Não! É que... Como eu direi... Podemos nos encontrar hoje a noite?
-Claro. Por que não? - sorri – De madrugada?
-Uma da manhã está bom?
-Ótimo!
-Preciso ir, senão eles notarão minha ausência por tempo demais.
Ele ia sair correndo, mas eu o peguei pelo braço.
-Espere! (Em alemão) - o puxei para perto de mim – Um beijo pelo menos?
-Alguém pode nos ver.
-Nein. Eu sei todos os horários do Queen Andromeda e eu estou sozinho aqui neste horário.
Ele relaxou e isso permitiu que nos beijássemos. Quando nos desvencilhamos, ele disse:
-Até mais tarde!
E neste e nos outros dias que se seguiram, eu me encontrei com Bryant Vincent Kelly durante a madrugada para irmos ao meu quarto. Só ficamos mais atentos a não dormir igual da primeira vez.
Chegamos ao porto de Londres e ficaríamos atracados por uns dois dias até o próximo carregamento. Esse era o tempo que os homens saíam do barco para aproveitar um pouco. Raras as vezes que eu ia com eles. Decidi ficar no navio. Pude ver o Marujo que me fez companhia nas últimas noites partir com os novos amigos para se divertir. Não fiquei com ciúmes, afinal, não temos nada. Ou será que temos?
Durante a noite, me peguei olhando a foto dele de novo. Sim, era saudade, acho eu. Era estranho estar sozinho a noite agora. Sentia falta do calor dele, da voz dele, do sorriso dele, daquela franja caída entre os olhos. Merda! Será que eu estou me apaixonando? Eu não sei!
Passadas algumas horas, Torsten entrou desesperado e ofegante na minha cabine. Ele veio correndo até ali, dava para saber.
-O que foi, Torsten?
-O Kelly... - disse tentando recuperar o fôlego – Ele... Ele entrou nunca briga e agora está prestes a ser estuprado pelo cara com quem arrumou confusão. Vim correndo te avisar!
Eu nem pensei duas vezes, levantei, vesti o meu casaco e sai correndo para o bar, com o meu amigo me guiando. Eu não queria que acontecesse com ele o que houve comigo.
Cheguei ao bar e todos os outros tripulantes se surpreenderam ao me ver ali. Tive que perguntar a um garçom atrás do balcão.
-Onde eles foram? O garoto de branco de cabelos castanhos e o outro?
-Eles foram para um dos quartos lá em cima. Acho melhor não se meter com ele, senhor.
Eu ignorei essa última frase, meu sangue fervia, tanto pela corrida, quanto para bater no filho da puta. Todos me indicaram qual era e eu fui lá. Coloquei o ouvido na porta e pude ouvir os gritos de Bryan. Já tinha acontecido! Eu só podia tornar aquilo menos pior. Afastei-me e com todo a minha força, eu chutei a porta, que abriu facilmente, pois era frágil. As dobradiças rangeram com a pancada e os dois viraram o olhar para a minha direção. Eu vi Bryan muito machucado e sem roupa, ele arregalou os seus olhos azuis ao me ver. E o outro, eu jamais me esqueci daqueles cabelos compridos e a aquela barba mal feita. Ele só estava um pouco grisalho comparado as minhas lembranças. E nem preciso dizer que me sangue borbulhou ainda mais ao saber que era ele. Sem as calças e com o Bryan de quatro para ele. O reconhecimento foi recíproco.
-Steffen?!
Não respondi. Apenas me aproximei dele, tirei ele de perto de Bryant e lhe dei um soco com toda a vontade e deixei-o cair no chão em seguida. Falei com o marujo:
-Vista-se e vamos embora daqui.
-Ah, mas não vai mesmo. - o outro se levantou – Não vai ferrar com a minha diversão desta noite. - vestiu a sua parte de baixo da roupa
-Eu me esqueci que para você o estupro é divertido. Quanto tempo se divertiu comigo não?
Ele avançou para me atacar, tentando me dar vários socos seguidos, desviei de todos.
-Vejo que aprendeu a lutar.
-É o que se deve fazer para sobreviver.
Mais uma sequência de golpes, infelizmente alguns desses me acertaram. Enquanto isso, Bryan só olhava, sem reação. Ao falar com ele, me distraindo, acabe tomando um na boca do estômago, o que me fez cair ajoelhado no chão.
-O que esse cara é seu, afinal de contas? Por que o está defendendo?
-Ele é da minha tripulação. Não posso permitir que nada ruim aconteça com eles. - fiquei de pé
-Não faria isso por um mero marujo.
-Acha que me conhece, mas não sabe nada sobre mim. Só se aproveitou de mim, sem se importar com meus sentimentos.
Ele, puto, veio de novo. Tentou me acertar e não conseguiu. Bryant ia sair, mas ele correu para pegá-lo, fugindo de mim. O marujo desceu as escadas sendo seguido por nós dois. Torsten o escondeu atrás dele.
-Vai fugir de mim?! Não se esqueça que perdeu uma aposta comigo e você vai pagar. - cutuquei nele – Mas primeiro, deixe eu acabar com esse seu capitão de merda.
Começamos uma briga no meio do bar, todos os meus homens torciam por mim. Foram muitos socos e chutes certeiros. Apanhei um bocado, mas consegui derrubá-lo. Quando ele estava caído, o prendi com as pernas subindo em cima dele.
-Me solta, Stefen.
-Nein! - gritei – Eu vou te bater igual você fez comigo naquele dia e tantas outras vezes e também por ter batido no meu marujo.
-Capitão, não precisa disso. - Vincent se manisfestou, saindo da proteção de Torsten
-Não é só por você, é por mim também. Eu ainda tenho a cicatriz que esse filho da puta deixou em mim. E ele resolveu abri-la de novo ao mexer com você.
-Eu sabia que tinha algo entre vocês. - ele bravejou – Dá para ver na cara dele.
-Cale a boca! - e dei uns três socos na face dele e o nocauteei – Eu não te perguntei nada!
Todos os membros da tripulação vibraram com a minha vitória. E Bryan veio me abraçar.
-Obrigado, Stef.
-Por nada, Bryan.
Torsten cruzou os braços como uma forma de me chamar atenção. Eu tinha dado mole e um dos grandes. Os outros olharam para nós sem entender nada e eu devia explicações... Explicações de anos!
-Capitão... - eles me olharam quando subi em um das cadeiras para falar
-Atenção todos os tripulantes do Queen Andromeda, eu, Steffen Frey, seu Capitão, tenho algo a lhes contar. Eu guardei isso por muito tempo, mas acho que já é hora de saberem. Apenas Torsten e Bryant sabiam disso até então. A verdade é que: Eu sou gay!
-Sério, Capitão? - soltou um
-Se não falasse, eu nunca saberia. - comentou outro
-É por isso que você sumia no meio da noite né, Kelly? Ia ficar com o Capitão. - falou um dos amigos do marujo, que ficou sem ter onde se esconder
Já sabia que iam insinuar algo entre mim e Bryan e começou um burburinho.
-Senhores, calma. - voltei a falar – Sim, há algo entre eu e o Marujo Kelly, mas isso não é do interesse de vocês. Continuem cuidando dos seus direitos e deveres. Bom, agora que já sabem, se me dão licença... - puxei-o pelo braço - Eu vou cuidar dele.
Pedi um quarto e um kit de primeiros socorros ao dono do bar, que me atendeu prontificamente. Bryant sentou na cama assim que entramos e eu fechei a porta para termos mais privacidade. Ajoelhei-me diante dele e só assim pude ver como ele realmente estava. Ele tinha alguns hematomas e machucados pelo corpo. Cuidei deles junto com as reclamações de que não precisava e que estava bem, mas eu fingia que não ouvia. E depois Bryant insistiu para cuidar dos meus também, ainda mais do olho roxo que consegui e para isso, pediu gelo. Então, resolvi perguntar:
-O que foi que aconteceu para que tudo acabasse assim?
-Estávamos jogando cartas e quem perdesse fazia algumas coisas bem simples, como virar uma dose de uma só vez. Só que as apostas foram aumentando e bem, eu ganhei por muito pouco e ele ficou muito puto. Indignado, partiu para briga e fui apagado por ele. Quando dei por mim de novo, ele estava me batendo para acordar. E ele me virou e daí você já sabe o que houve.
-Isso é bem a cara dele.
-De onde você o conhecia, Stef?
-Ele é aquele cara que eu lhe falei, o que abusou de mim por longos anos. - ele fez uma careta, entendendo – Ele conseguiu o que queria com você não?
-Parcialmente! Você o interrompeu. - sorriu – Só fiquei um pouco machucado, mas estou bem. Até tentei me defender do estupro dele, mas ele era bem mais forte do que eu.
-Eu te entendo. Passei por isso mais vezes do que possa imaginar.
-Pelo menos, eu tinha você para me ajudar. Foi o Sub-Capitão Torsten que o chamou no navio?
-Sim! Ele era o único que sabia sobre nós, acabou ouvindo o que não devia. - e ri
Bryan sentou-se ao meu lado e colocou a cabeça no meu ombro e me questionou:
-O que faremos agora em relação ao resto dos marinheiros?
-Nada. Já fui bem claro com eles: não lhes interessa. É algo entre eu e você apenas.
Passadas algumas horas, todos voltamos ao navio, carregamos e zarpamos de volta as Américas. O clima no navio se manteve o mesmo apesar do que houve no Bar em Londres. Eu dei um tempo para Bryan se recuperar do que passara e uns dias depois ele falou que iria para o meu quarto a noite. Encontrei-o no convés e fomos para lá. Alguns beijos e amassos depois, ele falou:
-Eu farei oral em você!
-Não precisa, Bryan, é sério. - reclamei, porque eu realmente não gostava muito
-Deixe eu fazer ao menos uma vez.
Não pude brigar com esse argumento. Sentei-me na cama e marujo começou. Parecia que ele sabia o que estava fazendo. Chupava e mordiscava algumas vezes com vontade, enquanto eu sentia calafrios subirem minha espinha. Nunca recebera um oral tão bom quanto aquele. Quando faziam em mim era sempre algo meio sem graça e sem sal, com aquela ideia de só “me acender” para depois, acho que era esse o motivo de não gostar muito. Mas ele estava além disso, ele queria me fazer gozar. E não precisou de muito tempo para conseguir. Senti um calor subir na espinha quando gozei. Bryan engoliu tudo e tirou a boca. Ele me olhou sorrindo e disse depois:
-Eu vou me deitar.
Claro que isso indicava o “vamos começar”, mas eu decidi que faria algo diferente naquela noite.
-Nein! Eu me deito hoje.
-Mas você disse que nunca mais queria ser passivo.
-Eu não disse isso. - retruquei – Disse que nunca mais fui, por conta de alguns traumas. Mas é diferente...
-Eu não sei como fazer. Nunca fui ativo lembra? - me olhou, com medo
-Confio em você. - coloquei a mão no rosto dele – Já teve e viu isso tantas vezes. É só se recordar de como faço com você.
-Mas...
-Sem “mas”. Confio em você. - me joguei na cama
Pude vê-lo engolir a seco. Suas respirações aceleraram e o vi a mão dele tremer um pouco. Peguei-a e segurei, dando mais um voto de confiança. Ele inspirou fundo e me beijou.
Bryan seguiu praticamente o mesmo script que eu. Levou ao pé da letra demais, porém ele estava se esforçando. E eu estava em um misto de estranheza e prazer. Anos sem ter nenhuma daquelas sensações. As de ser tocado e receber carinho de alguém de quem você gosta. Na verdade, eu nunca soube o que era isso. Beijos e chupões em várias partes do meu corpo, junto com os meus gemidos baixos. Até que ele decidiu que ia penetrar. Eu só apontei em que gaveta estava, pois eu soube a pergunta só pelo olhar dele. E fui eu quem ficou com medo nesse momento, com muito esforço não fechei as pernas imediatamente. Bryan colocou lubrificante na mão e começou a abrir o caminho em mim, do mesmo jeito que eu faço. Primeiro um dedo, depois dois, até um terceiro. Enquanto ele fazia isso, senti espasmos subindo pelas costas, como havia tempos que não sentia. Pegou mais um pouco e passou em seu pênis. Ambos estávamos nervosos, dava para perceber pelo jeito que nos olhamos. Completamente fora da posição de conforto.
Penetrou devagar, até que conseguiu colocar tudo. Era algo muito estranho ter algo dentro de mim de novo, era sempre o contrário. Mas eu aceitei isso bem, fui eu quem quis. Só não fazia ideia do que poderia acontecer quando ele começar a se mexer.
-Tudo bem, Stef? - ele perguntou
-Só um pouco aflito. Só isso!
-Quer que eu pare? - disse, relutante
-Nein! Já falei: está tudo bem. Eu vou saber onde colocar as pernas, não se preocupe com isso.
Ele riu. Isso serviu bem para quebrar a tensão.
Então, Vincent iniciou o movimento de vai e vem. Primeiro devagar e aumentando gradativamente. Cada estocada vinha com um gemido meu, que eu não conseguia controlar. Ele se agarrou nas minhas coxas para conseguir ir mais fundo e estava conseguindo. Sentia todo o meu interior se contraindo e relaxando a cada segundo. Eu percebi que tinha ficado duro de novo com aquilo tudo. Foi uma coisa que nunca aconteceu, nem durante os anos em que fui um boneco nas mãos daquele outro. Após alguns minutos, Bryan já fazia muitas caretas. Nós dois estávamos quase sem ar. Ele soltou em meio a respiração ofegante:
-Não vou aguentar tanto tempo, Stef.
Assim que ele completou a frase, senti algo quente me encher por dentro, enquanto ele suspirou aliviado. Eu também cheguei ao meu limite e gozei também, sujando minha barriga e o rosto dele. Falei para ele pegar os lenços para nos limpar. Assim o fez!
-E então, Stef? - perguntou ao se deitar sob o meu peito – O que achou?
-Diferente. Estranho. E... maravilhoso!
-Fico feliz por isso. - ele respondeu – Também achei maravilhoso. Poderíamos fazer mais vezes.
-Concordo!
-Acho que está na hora de eu ir, Capitão.
-Não tem problema agora. Os outros sabem sobre nós.
-Eu me sinto mal ficando aqui. Podem falar algo.
-Não se preocupe. Posso dizer que caiu no mar de novo, marujo.
-Tudo bem, você me convenceu. - Ele riu – Um banho?
-Estou cansado para isso. Agora eu te entendo em todas as outras vezes.
-Gemer também cansa né?
-Tinha me esquecido disso.
Dormimos juntos naquela noite. E nada demais aconteceu no navio depois. Já tinha sido claro que estava com ele e todos os tripulantes entenderam isso perfeitamente. Tão perfeitamente que tomei café da manhã com ele. E dessa forma, os dias foram passando. Carregamentos para lá e para cá. Até que voltamos, mais uma vez, àquela cidade, onde meu encontrei com Bryant pela primeira vez, para deixar mais um e pegar outro. Nada fora da rotina.
Era mais um pôr-do-sol quando o navio ficou vazio, os homens foram festejar na cidade, como sempre. E eu, decidi ficar na Andromedazinha de novo. Supus que fosse ficar sozinho, então, fui a popa do navio para assistir o Sol ir embora, para depois fazer outra coisa, talvez comer. Estava distraído quando ouvi passos de alguém se aproximando. Virei-me e era ele.
-Stef! Te achei.
Bryan se sentou do meu lado, no banco que ficava fixo ali. Tive que questionar:
-Não vai sair com os outros?
-Não. É minha cidade natal aqui, eu passei maior parte da minha vida nela. Alias, eu não quero encontrar com ninguém conhecido.
-Você diz: Seus pais?
-Exatamente. - e pegou na minha mão – Eu prefiro ficar no navio com você, Stef. - sorriu
-Byan, ich liebe dich. - falei que o amava, olhando para ele
-O que isso quer dizer? Você sabe que não entendo, mesmo que goste quando fale.
-Você sabe a resposta, Bryan. Sei que sabe!
-Isso é uma pergunta então?
-Nein. É uma afirmação! Mas é uma do tipo que pode ser correspondida.
-I love you too, Stef.
-Você sabia, não falei? - disse antes de beijá-lo
-O que faremos a noite? - indagou depois
-Um jantar romântico. Que acha?
-Você cozinha, Capitão?
-Eu trabalhei um tempo na cozinha do Andromeda e tem um pouco do que minha mãe me ensinou.
-Então, quero provar da sua comida.

E ficamos ali, observando o Sol dar o seu “adeus” aquele dia, da mesma forma que ele deu um “olá” para o nosso amor.