terça-feira, 19 de julho de 2016

Capítulo 31 - Festa de Família

Final de semana. Minha folga finalmente.
Kazuko foi colocar Takumi pra tirar o cochilo dele da tarde. Acho que ela acabou dormindo também, não voltou até agora. Aproveitei a ausência dela para ler o diário. Anotações de uma semana inteira depois, cheguei ao dia da festa de aniversário do meu pai.
A partir desse dia que minha relação com Kazuko teve mais uma época conturbada e complicada.
Comecei a leitura.

“Diário,

lembra que eu te disse ontem que íamos a casa do pai de Makoto por que era aniversário dele?
Então, nos arrumamos e saímos.
Chegamos e a casa parecia cheia. O próprio Koishiro nos atendeu.
-Finalmente chegou, filho.
-Feliz aniversário, pai! - falou, Makoto, entregando o presente a ele
-Obrigado! - respondeu abraçando-o
-Parabéns! - falei abraçando e também abraçando
-Obrigado, Kazuko! É um prazer ter você comigo neste dia.
Entramos. Minami e Shiori vieram falar comigo. Imediatamente perguntei por Minori.
-Ela está com o Akira. Nenhum bebê gosta de ficar em um local com muita gente.
-Verdade. - concordei
E como na festa de aniversário do Makoto, não conhecia ninguém ali, exceto por uma pessoa, a ex-namorado de Makoto: Kana.
-O que a Kana faz aqui?
-Você a conhece? - indagou Shiori
-Sim. De uma outra festa,
-Ela não foi convidada pelo Makoto este ano. Sei lá porquê. - comentou Minami
-E o que ela faz aqui? - perguntei novamente
-É amiga da família. Os pais dela conhecem o Koishiro.
-Isso explica por que ela é a primeira namorada dele.
-Mas tem um outro motivo dela estar aqui. Nem faço ideia de qual seria.
-Nosso marido não disse.
No segundo seguinte, vi que Makoto e Kana começaram a conversar.
Eu fiquei sentada com Minami e Shiori. Elas acabaram me questionando como foi a viagem. Não sei se eu deveria contar tudo mesmo, mas acabei fazendo. Sim, falei tudo daquele “casamento”.”

Não, Kazuko, você não devia. Só que já tem tanto tempo, que... Bem, deixa para lá.
A Kana foi a única pessoa que tinha para conversar na festa, por ser a aqui tinha mais afinidade. Foi o que fiz!

“-Ele fantasiou isso mesmo? Sério? - falou Minami
-Fez sim.
-E o que achou?
-Tornou a viagem bem melhor para mim. Ninguém achou que eu fosse a escrava dele.
-E as transas? A mesma coisa de sempre? - perguntou Shiori
-Também ficaram diferentes.
-Diferentes como?
-Como se fôssemos um casal.
-Essa é a história mais maluca de dono e escrava que já ouvi. - comentou Minami
-Mesmo sendo Makoto. Não imaginava que ele fizesse algo do tipo.
-Ele não queria ter uma escrava – falei – para começo de conversa.
Ficou um breve silêncio, até que eu continuei:
-Algumas amigas me dizem que eu tirei “sorte grande” com ele.
-Concordo com elas. - Minami retrucou
-Ele te trata muito bem para um “normal” de escrava. É totalmente diferente do que se passava conosco. -Shiori comentou
-Mas isso pode ser perigo para você.
-Tudo e perigoso para mim, Minami. Mas qual seria dessa vez?
-Você se apaixonar por ele. E é uma situação mais comum do que parece.
-Eu sei. Aconteceu com a minha mãe. Mas pode deixar, tomarei cuidado com isso.
Elas foram comer e me deixaram sentada sozinha. Pude ver todos em suas rodas de conversa e tinha vista privilegiada do meu dono e a ex dele. E o assunto parecia bom, só os via rindo. Eis que Kosihiro chega e fala comigo, apontando para o filho:
-Belo casal, não acha?
-Não devia me perguntar isso. Mas, sim. É um belo casal.
-Discordo. Eu vejo alguém com muito mais potencial bem aqui do meu lado.
-Não diga isso, Sr. Miyasaki.
-Koishiro, Kazuko. Pode me chamar pelo nome.
-Enfim, Koshiro, por que diz isso?
-Você e meu filho se compartam diferente disso. Ainda lembro o quanto ele foi atencioso com você quando engravidou. E eu também sei do que ele preparou para o seu aniversário.
-Sabe que ele fez por pena, né?
-Ninguém dá uma liberdade diurna e uma festa surpresa por mera pena. E também tem essa história da viagem que acabei de escutar.
Cruzei os braços, reprovando aquilo. Ele se defendeu:
-Estava aqui atrás. Desculpe! - então ficou sério – Serei sincero: eu só chamei aqui Kana aqui porque os pais dela e ela me pediram. Ela ainda é apaixonada pelo meu filho e fará de tudo para ficar com ele.
-Só depende dele deixar acontecer ou não. - olhei para ele fazendo careta – Você não vai pedir nada não, né?
-Não! Sabe, eu quero muito que meu filho tenha logo a família dele. Mas o via preocupado com a carreira e totalmente desligado da vida amorosa. Ele é jovem e não estava aproveitando a juventude dele. Adiantou os estudos e começou a trabalhar cedo, porque queria ter a própria vida. Ele já começou essa conquista e já se sustenta. Eu me orgulho disso. Porém, não via o meu filho feliz, a carreira dele é desgastante e cansativa. Ele precisava de uma válvula de escape. Foi por isso que aconselhei-o a comprar uma escrava. Agora eu percebo que foi uma das melhores coisas que disse para ele fazer.
-Não entendo. O que eu tenho a ver com ele e a Kana conversando agora? E ela estar ainda interessada nele?
-Você faz bem ao Makoto, Kazuko. Isso que quero dizer. - respirou fundo antes de prosseguir – Ainda lembro de quando ele e a Kana namoraram. Meu filho só viva estressado e impaciente. Ela é possessiva e manipuladora. Eu sei que ela não é uma boa pessoa para ele. É coisa de pai. Acabei ficando protetor assim depois que a mãe dele morreu. - sorriu – Se eu pudesse escolher uma pessoa para ficar com Makoto, seria você, Kazuko.
Eu fiquei sem reação. Tentei falar algo, mas a boa abriu sem emitir som. Koishiro riu.
-Perdoe se te assustei! Estou falando o que penso. - ainda comigo paralisada, continuou – Não vai ficar querendo assistir isso... Vá para o quarto com a Minori, talvez ela esteja precisando de ajuda.
Segui a recomendação dele. Minori brincava com Akira quando entrei.
-Kazuko, nem sabia que estava aqui. Tudo bem?
-Sim, Minori. Vim te fazer companhia.
-Que bom. Estou cansada desse isolamento aqui. - sorriu – Pode tomar conta do Akira enquanto pego algo para comer? Se não for incômodo.
-Pode ir.
Ela agradeceu. Então fiz o pequeno gargalhar até o retorno dela.”
O que eu tanto falava com a Kana naquela noite?
Lembrávamos dos velhos tempos. Do colégio, nosso namoro e ainda mais da infância. Eram histórias memoráveis e engraçadas.
Depois de um bom tempo, quando Kazuko saiu do meu campo de visão, Kana começou a puxar outros assuntos. E sim, me seduzindo. Fomos para o lado de fora para termos mais privacidade. Acabou rolando apenas alguns beijos.
Kazuko nunca soube disso e prefiro que não saiba. É uma parte horrível da minha vida.
Se bem que deve ter óbvio para ela que houve alguma coisa.

“-Parece que estão se divertindo e muito. - disse quando voltou – Então, tava gostando da festa?
-Na verdade, não. Prefiro ficar aqui. Mais quieto e com um bebê mais simpático que muita gente lá fora.
No instante seguinte, Kyosuke, que não tinha visto até então, abriu a porta e veio me abraçar.
-”Kasugo”, que “saldade”.
-Assim que eu falei para ele que estava aqui, quis vir te ver. - comentou Minami
-E onde estava que demorou tanto? - perguntei para ele
-Eu atava vendo desenho.
-Que legal! Qual era?
-A magia para voar. - respondeu
-Já vi esse. É com as crianças que tem que salvar o príncipe?
Ele assentiu, sorrindo.
Assisti a esse filme numa tarde tediosa e pós-serviço na casa de Makoto, junto com a Keiko, inclusive.
E nós quatro – eu, Minami, Minori e Shiori – junto com as crianças ficamos ali, com mais privacidade e silêncio. Repeti a história da viagem todinha para a Minori, que teve reação idêntica das outras.
Logo Koishiro nos chamou para cantar parabéns. Saímos logo e ele foi chamar o filho, que estava do lado de fora com a Kana. Isso é um mau sinal! Ainda mais pela boca dela estar com o batom borrado e a dele estar suja do mesmo.”

Eu disse que era óbvio. Haha

“Todos cataram e Kyousuke apagou a vela junto com pai. Após isso, comemos e as pessoas começaram a ir embora.
Permaneci sentada no sofá, brincando com as crianças. Kana saiu logo com os pais e Makoto se aproximou:
-Se divertindo?
-Sim. Sabe que gosto dos seus irmãos... E de crianças.
Ele sorriu, concordando.
-Hora de irmos. - falou em seguida
Despedimo-nos de todos e saímos. E ele resolveu me sondar na volta:
-Eu te vi falando com meu pai. O que era?
-Ele estava contando sobre quando namorou a Kana.
-Nosso namoro era um pouco difícil. Porque a Kana é assim.
-Mas ficaram mais tempo conversand. Foi só isso mesmo?
-Sim! Além de que ele ficou me explicando os preparativos da festa.
Eu não podia, nem na vida, nem na morte, falar sobre aquilo que ele me contou. São coisas que entram em um ouvido e saem pelo outro.”

E também não sabia disso até hoje. Meu pai já estava me shippando com a Kazuko.

“Puxei outro assunto:
-E divertiu-se hoje?
-Claro. É sempre bom lembrar do passado, mesmo que ele tenha sido complicado. E você, Kazuko?
-Fazer crianças rirem é algo que me faz bem.
-Fez companhia as minhas madrastas então?
-Sim. Elas sempre ficam um pouco isoladas nesses eventos e como eu também, me aproximo delas.
-As pessoas ainda não compreendem a relação das três com o meu pai. Elas são ex-escravas e esposas, dois tabus.
-E o que você pensa, Makoto?
-É só diferente. Mas todos eles se amam e se entendem. Para mim, pouco importa. Desde que estejam felizes!
-Concordo! - sorrindo
Chegamos a casa e fomos dormir. Makoto nem me chamou para ir ao quarto com ele. Deu-me boa noite com um beijo na testa.
Isso é um outro péssimo sinal!”


Cansado de ler, olhei o relógio. Kazuko já dormira demais, então eu fui acordá-la.