segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Capítulo 32 - A trabalho?

Algumas semanas passaram e tive alguns casos grandes para defender. Ainda mais um que entrou em evidência. Um dono alforriou sua escrava e meses depois ela teve um filho. Então, a esposa quis a guarda dessa criança. Eu estava na defesa do casal, mas eu não pude não ter pena da ex-escrava. Ela recebeu um advogado por conta da lei que diz que todos têm direito a defesa. O advogado era bom, mas ainda tinha muito a aprender.
Até tentei ajudar oferecendo uma ideia de acordo, porém o casal foi incisivo e disse que não.
Meus argumentos deram ganho de causa ao casal e a ex-escrava nunca mais veria o filho. Só restou a ela sair chorando. O casal me agradeceu o bom serviço e informaram que me recomendariam aos amigos.
Sai do tribunal e vi a mulher dando um último abraço no filho, antes de entregá-lo ao casal. Observei a cena com uma dor no peito. Lembrei imediatamente de Takumi e me coloquei na situação. Eu não teria coragem de fazer a mesma coisa. Meu olhar cruzou com o da ex-escrava e pude ver o sofrimento. Contudo, não consegui lhe dar nenhuma palavra de conforto. Eu nem podia imaginar o que ela sentia.
Retornei ao escritório completamente arrasado. Passei na sala do meu chefe, que me indagou:
-Então, como foi? Qual o resultado?
-Eu ganhei.
-Meus parabéns, Makoto. - apertou minha mão – Mas não me parece feliz.
-Acho que sabe o porquê.
-São os ócios do ofício. Você defende uma posição que é contra.
-Eu sei!
-Tire uns dias de folga. Merece por seu bom trabalho.
Agradeci e dirigi até minha casa. Cheguei e parece que Kazuko saiu com Keiko e Takumi, vide o silêncio que estava quando entrei.
Decidi pegar o diário para poder relaxar um pouco. Abri no trecho em que Kazuko passou um fim de semana com a mãe, que foi algumas semanas depois do aniversário do meu pai.

“Querido diário,

Eis que estou sentada na cadeira da escrivaninha do meu quarto, na casa da minha mãe. Não fui alforriada. Bem que eu queria, mas não. Só estou aqui porque Makoto fez uma viagem a trabalho e não quis me deixar sozinha e me trouxe para passar o final de semana na companhia de mamãe. Saímos no final da noite de ontem e eu dormi aqui.
É tarde da noite de um sábado agora. Assim que terminar de escrever, irei dormir.
Acordei e desci para comer de manhã. A primeira coisa que atingiu minhas narinas foi o cheiro da comida. Que saudade!
Uma coisa que percebi é a diferença da mesa que minha mãe põe aqui e a que Keiko arruma na casa de Makoto. A quantidade de escolhas que tenho todas as manhãs é bem maior do que antes. Porém, aqui tem algo que não tenho lá: Família.
Após comermos, saímos para ir numa praça próxima.
-Eu tinha esquecido em como as ruas daqui são sujas. E tão cinza! - falei
-O lado de lá parece até um outro mundo. - mamãe completou
Chegamos alguns minutos depois. Tinha bastante gente no lugar, continuamos caminhando e conversando:
-Nem perguntei como foi a viagem, filha.
-Eu gostei, me diverti muito.
-Ninguém ficou te olhando torto lá?
-Não. Makoto deu um jeito para que isso não ocorresse.
-Como?
-Um casamento de mentira.
Mamãe arregalou os olhos e gaguejou:
-Não sei o que dizer sobre isso. Não sei se acho estranho ou se acho que foi algo bom da parte dele.
-Entendo isso como fantasia dele.
-Mas que fantasia mais maluca!
-Ricos, mãe. Ricos!
-Makoto é um bom rapaz, mas como todo rico tem algumas coisas estranhas. Só fico feliz que isso tornou a viagem melhor para ti.
Sentamo-nos em um banco próximo aos brinquedos, onde muitas crianças estavam. Observei-as correndo, pulando, escalando, escorregando e fui capaz de me ver nelas. O quanto fui àquele lugar e tive momentos felizes. Saudades da minha infância despreocupada, até o primeiro dia que fui ao centro de escravos.
Minha mãe percebeu o meu olhar e perguntou:
-Sente falta daqui, filha?
-Claro que sim. A gente só percebe como é bom ser livre quando se deixa de ser.
O silêncio da possível resposta foi o modo de concordância dela. E eu continuei:
-Mas é como dizem, mamãe: eu tirei a sorte grande. Não acho que tenha sido tão ruim assim, pelo menos, na maior parte do tempo. Só que eu passei por alguns problemas.
-Em comparação com todos os outros que conhecemos, você realmente vive bem melhor agora. Inclusive engordou um pouco.
-Posso até estar vivendo “melhor”, mas,  trocaria tudo pela minha liberdade.
-Quem não faria esta troca?
Então, apareceu uma conhecida e nos abordou:
-Kazuko, Saiko, quanto tempo. Foi liberta, menina?
-Não. - mamãe respondeu por mim – O dono foi viajar e a deixou comigo.
-Isso existe? Não sabia. - e riu – Realmente, Saiko, sua filha é muito sortuda.
Caramba! Não aguento mais ouvir isso. Que coisa chata!
A mulher e minha mãe ficaram conversando um bocado e eu tentei suportar a conversa, mas não dava. Pedi licença e fui a um dos balanços livres, mesmo que ele não fosse do meu tamanho. Fiz exatamente da mesma forma de quando infante. O mais alto que podia, como se quisesse alcançar o céu. Porém, não o via da maneira cinzenta daqui. Era azul, assim como o da praia.
Todos me falam da sorte que tenho tendo Makoto como dono. Ser escrava não é uma coisa boa. Para ninguém, em lugar nenhum!
Não passei apenas por coisas boas. Sim, Makoto é muito bom dono, mas não perfeito. Tivemos discussões, brigas e algumas situações estranhas. E sobre estas, eu prefiro nem comentar.
Posso sair durante o dia, fazer o que quiser, ir aonde quiser, contudo, em todas as noites ou a maioria delas devo estar com ele no quarto. Ainda é prisão. Ainda é escravidão. Ainda é algo a que sou obrigada. Não é bom, definitivamente.
Perdia a noção do tempo e logo mamãe me chamou para voltarmos. Agradeci por isso!”

Imaginei que Kazuko passasse mesmo por tudo isso. Havia coisas boas, porém o mais importante ela não tinha. Não adiantava tudo o que desse a ela, o que queria era liberdade.

“Almoçamos, assistimos a um filme e depois ajudei-a com algumas coisas, por exemplo, os serviços que ela faz pra fora. Costura, doces, artesanato. Minha mãe é versátil nisso, porque precisa ganhar dinheiro. E era algo que senti saudade também. Gosto desses trabalhos manuais.
Ficamos até ainda agora fazendo isso. Só vim escrever antes de dormir.
Até amanhã!”

Imediatamente passei à anotação seguinte, ainda sem sinal de alguém chegar.

“Olá diário,

já voltei a casa de Makoto. É segunda agora!
Eu fiquei o domingo todo praticamente num aniversário de uma prima, ou pelo menos, até o anoitecer. Foi o 10º aniversário e sua primeira noite no centro de escravos.
E, sinceramente, o primeiro aniversário desse período não é feliz. Se assemelha a uma espécie de tortura, que pode piorar ao ser comprada ou dura longos oito anos.
Ainda lembro da minha ansiedade ao completar os dezessete. Faltava um ano só! E poucos meses depois, enfim, já sabe o resto.
E ao ver o rostinho da minha priminha sendo arrumada para ir para lá, recordei de mim. Da primeira noite e de todas as outras, até aquela que vi um homem de terno me olhando fixamente enquanto dançava. O mais engraçado foram os desejos de boa sorte a ela. Eu não consegui seguir esse padrão. Abaixei-me na altura dela, a abracei e falei:
-Fique bem! E seja você mesma.
-Obrigada! - ela se desvencilhou de mim – Sabe, Kazuko, se for comprada, quero que seja por um dono que nem o seu.
-Não pense assim. Não há nada melhor do que ser livre. Não pense nem em ser comprada.
E claro, veio aquela fala que me atormenta: Kazuko, você tirou a sorte grande. Ela tá certa!
Assim que ela saiu, meu celular tocou, era Makoto dizendo que estava próximo. E e minha mãe nos despedimos e voltamos para casa. Peguei a bolsa que levei com alguns pertences e cerca de quinze minutos depois estava me despedindo de mamãe e entrando no carro. A primeira coisa que notei foi um perfume diferente, feminino eu diria. Nem comentei sobre, apenas cumprimentei Makoto e perguntei:
-Como foi a viagem?
-Foi cansativa. Mas consegui encontrar os documentos que estava procurando. E você, se divertiu?
-Sim! Mesmo que o final da tarde agora não tenha sido nem um pouco.
Ele quis saber o porquê e lhe contei. Então falou:
-Não consigo imaginar o que vocês passam.
-Agradeça por isso, Makoto.
O resto do caminho seguiu quieto.
Chegamos e entramos. Makoto foi em direção ao quarto, fui atrás dele e logo alcancei-o. Sim, ia beijá-lo, porque eu queria. A regra é assim! Porém, ele me impediu. Obviamente, entendeu errado.
-Kazuko, não quero ir para o quarto. Tô cansado! Só quero tomar um banho antes de dormir.
Ia retrucar, mas, mesmo com a pouca luz do corredor, vi uma marca vermelha na bochecha dele, então compreendi o que realmente houve naquele final de semana. Mudei minha resposta:
-Tudo bem! Só vou te desejar boa noite.
-Ah, - ele relaxou – boa noite! - sorriu
-Boa noite! - disse de maneira equivalente
Ele entrou em seu quarto e eu fui pro meu. Tomei um banho e vim escrever aqui.
Estou aqui pensando sobre o que vi no rosto de Makoto. Bem, acho que não foi a trabalho essa viagem, ou talvez, não só a trabalho. E minha intuição diz que é a Kana. Por conta do que o pai de Makoto me confidenciou, do que aconteceu naquele aniversário e também, pelo pouco que vi agora.
Provavelmente, Makoto está saindo com a Kana e logo estarão namorando.
Isso é ruim para mim! Outra intuição me diz isso.
Mas, o que não é ruim para mim sendo escrava?
Terei que esperar para ver.
Agora vou dormir.”

Fechei o diário e liguei a TV para ver um filme qualquer, enquanto o ocorrido do dia veio a minha mente. E veio forte, tão forte que deixei algumas lágrimas caírem pela minha face. Não tardou muito e outros três chegaram e Kazuko, vindo falar comigo, percebeu meus olhos vermelhos.
-Makoto, o que houve?
-Eu ganhei aquela causa que lhe falei.

Ela entendeu e me abraçou.