quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Capítulo 39 - Regras e promessas quebradas

Semanas e mais semanas se passaram, tanto no diário quanto para vida real.
Hoje é um sábado e acabei de voltar do chá de bebê do meu terceiro irmão, ou melhor, da minha irmãzinha. Esta foi a novidade contada no evento. Ainda bem que o presente que demos foi totalmente agênero.
Era final de noite e mesmo cansado queria ler o diário. Kazuko foi com Takumi para tomarem banho e depois dormir. Eu fiquei na sala.
Nas leituras anteriores, lembrei do meu 23º aniversário, que teve de interessante só meu almoço com Kazuko, onde até cantar parabéns para mim cantou. A festa em si foi bem ruim.
E o trecho ao qual cheguei hoje foi o 19º aniversário dela. O mês de punição já terminara havia umas semanas. Então, ela tinha voltado a sair.
“Ai diário,
Se no ano passado tive o melhor aniversário da minha vida, neste ano foi o pior.
Não tenho do que reclamar do dia que passei na casa de minha mãe. Foi uma festa com tudo de melhor que recordava minha infância. Com toda a família. E para aproveitar ao máximo, sai pouco após o café. E claro, Makoto e Kana me perguntaram:
- Aonde vai tão cedo? – ela, venenosa
- Vou à casa de minha mãe. E só voltarei no final da tarde.
- Por que vai lá? – ele dessa vez
- É uma data especial.
Ele só assentiu. Eu estava meio chateada por ele não ter lembrado.
- Divirta-se com a sua gente. – soltou Kana
Não respondi. Ia sair, mas Keiko me chamou, deu-me um pequeno presente e me abraçou:
- Feliz aniversário, Kazuko. Espero que aproveite seu dia. – continuou, segurando meus ombros – Se não for incômodo, posso fazer um bolo para você?
- Pode! De chocolate.
Despedi-me dela e sai.
Peguei o transporte público e o trânsito estava tranquilo e logo cheguei.
- Filha, que bom que está aqui! – me apertou num abraço – Parabéns! Tudo de bom para você. Que seus sonhos se realizem.
- Obrigada, mãe. – sorri
- E como vão as coisas por lá?
- Na mesma. E bem, só a Keiko lembrou e me presentou. Nem abri ainda.
- Então foi até bom ter vindo para cá. Agora me ajude a terminar de arrumar.
O resto da manhã passei apenas com minha mãe. No início da tarde, os convidados começaram a aparecer. Foi um almoço e eu matei a saudade que estava da comida dela. Até Rin e Namie foram.
Comemos e depois todos resolveram perguntar sobre como estava minha vida de escrava, já que era a única pessoa que contava as experiências em tempo real. E claro, queriam saber onde estava meu “dono dos sonhos”.
- Trabalhando provavelmente. – respondi – E mais tarde estará com a namorada.
- Quê? Namorada? – gritaram todos, exceto mamãe, Rin e Namie
- Sim. Tem pouco mais de seis meses. Podemos não falar sobre ela? Não nos damos muito bem. – vi RIn fazer uma careta – E bem, acabamos até brigando.
- Brigar como, filha? – indagou minha mãe
- Fisicamente. Na verdade, eu apanhei mais do que qualquer outra coisa.
Apesar das facetas chocadas, acho que foi a coisa mais normal que me ocorreu nesta vida de escrava até então.
No final da tarde, cantamos parabéns, soprei as velas e cortamos o bolo. Estava perto da hora de partir, era próxima da hora do sol se pôr. Auxiliei minha mãe a organizar e limpar tudo. Peguei carona com Rin e Namie. Mas, não contava com uma coisa: engarrafamento. Era dia de semana e horário de pico. Uma viagem que levaria normalmente meia hora, estava durando um hora a mais.
- Será que o Makoto não reclamará de seu atraso? – Rin questionou
- Não! Acho que ele vai me dar um desconto por ser hoje.
- Melhor ligar para lá de qualquer forma. – Namie opinou
- Tem razão. Farei isso.
Peguei meu celular e liguei par aa casa de Makoto, Keiko atendeu e disse que informaria imediatamente assim que ele chegasse.”
Ela só não contava com a Kana. Keiko tentou falar comigo assim que entrei, porém Kana interrompeu três vezes mandando trazer o jantar. Acabou que ela ficou ocupada depois disso, só pode falar quando eu mesmo perguntei, respondendo:
- Ela ligou, disse estar presa do trânsito, mas está de carona com a Rin.
Apenas assenti e Kana esbravejou:
- Isso é um absurdo! Ela claramente descumpriu a regra. Vai ver quando chegar
- Pelo menos ela avisou, Kana. – argumentei
- Pare de ser conivente com o que ela faz. Eu disse que um dia ela ia abusar. Olha só!
“Cheguei uma hora depois. Agradeci a carona e subi. Entrei e Kana me recebeu do pior jeito possível:
- Onde estava até essa hora, escrava? E ainda foi fazer compras. – pegou minha bolsa com os presentes e começou a tirar item por item – E que mal gosto, hein.
Parecia em câmera lenta. Uma puxada, uma cara de reprovação. O pior era Makoto assistindo a tudo e mastigando. Imagina o misto de tristeza e ódio que eu fiquei. Meu corpo e o fundo dos olhos arderam. Fechei-os e respirei forte. Não queria que aquilo continuasse a acontecer.
Tomei a bolsa dela e, antes de recolher os objetos que foram jogados no chão, falei com a voz mais fria que saiu de mim:
- Com licença, Kana, estes são meus presentes de aniversário e não quero me mexa neles.
Numa outra situação ela retrucaria, mas acho que ela ficou em choque com a frieza de minha fala. Dirigi-me a Makoto e peguei um pedaço de bolo e uns doces que levei para ele. Só que dessa vez não consegui mascarar as emoções.
- Trouxe isso para você, não sei nem o porquê. – uma lágrima solitária caiu – Obrigada por manter suas promessas. Agradeço por me dar o melhor e o pior aniversário da minha vida.
E simplesmente me virei e caminhei até o meu quarto, desabando no choro mesmo antes de atravessar a porta. Bati-a, larguei tudo em qualquer lugar e me joguei na cama.”
Assim que Kazuko saiu, Kana falou se aproximando:
- Ela enlouqueceu? Quem ela pensa que é para “não querer que eu mexa”? Vou coloca-la no lugar dela agora mesmo.
Ameaçou sai, mas a peguei pelo pulso antes.
-Ela está com raiva porque esqueci o aniversário dela, Kana. Deixe-a sozinha um pouco.
- Foda-se que é o aniversário dela. Ela claramente desobedeceu a uma regra e temos que verificar as coisas que ela trouxe consigo.
- Você quer xeretar, não apenas verificar.
Keiko passou carregando o bolo de chocolate. E Kana se enfureceu ainda mais.
- Até bolo? Sinceramente, Makoto, eu não te entendo. – bufou
- Ele não me pediu para fazer. – Keiko comentou
- Ora, menos mal. – ela sorriu – Só que você não vai levar isto para ela.
- Por que não? – indagou Keiko
- Ela está merecendo?
- É aniversário dela! Ela merece! E não se preocupe que via sobrar um pedaço para ti.
- Makoto! – gritou – Faça algo quanto a isso.
- O que? Concordo com ela. Pode levar! – Keiko saiu e Kana bufou de novo – Que foi? É só um bolo.
- É só um bolo, Makoto. Sim! Imagine. Ela chegou fora do horário estipulado e nos desrespeitou assim que chegou.
- Kana, para! Qual é o seu problema com ela?
- Ela é o problema! Uma escrava muito abusada pro meu gosto. E você aceita e dá liberdade a tudo o que ela faz.
- Vou puni-la por isso, mas só amanhã.
“Uns minutos depois, alguém bateu a porta.
- Makoto, vai embora! – esbravejei
- É a Keiko, Kazuko.
- Pode entrar. – levantei-me e enxuguei meu rosto e sorri ao ver o que ela trazia
- Espero que lhe anime um pouco.
- Caramba, Keiko, esqueci de abrir o presente. – corri e peguei-o na minha bolsa, sentei-me na frente dela e abri, era um colar com meu nome como pingente – Obrigada! – abracei-a
Então, ela me pediu para segurar o bolo, pegou um acendedor de velas. Cantamos juntas, eu assoprei e ela cortou dois pedaços e comemos nos pratos de sobremesa que ela trouxe.  Claro que o primeiro pedaço foi a para a aniversariante.
- Se eu pudesse, te levaria para dormir lá em casa. – ela confessou – Pelo menos para ficar longe dela um pouco.
- Makoto não deixaria.
Conversamos sobre como foi meu dia e logo depois Keiko foi para casa.
Fiquei sozinha de novo e resolvi arrumar meu quarto para me distrair. Tomei um banho e vesti um pijama antes da sessão de arrumação. Fui tirando os presentes um a um e guardando-os. Maioria eram roupas.
De tão distraída até me assustei quando ouvi batidas na porta. Makoto entrou.
- Só vim falar com você antes de dormir. – cruzei os braços esperando ele continuar – Desculpe ter esquecido o se aniversário. Tenho estado tão ocupado.
- Como a Kana, é claro.
- Também! E... Bem, vou ter que te punir por ter chegado fora do horário... – senti que tinha algo mais a dizer
- E o que mais? Vai me punir por tê-la “destratado”?
- É! Pela sua grosseria com ela.
- Onde? – soltei, indignada – Realmente, Makoto, ela te manipula mais do que pensei. Daqui para frente só tende a piorar. Mas, tudo bem. Sei bem qual o meu lugar, apesar dela achar que não. Suspensão de liberdade diurna de novo?
- Sim! – suspirou – Era só isso. Boa noite!
- Ei, não está esquecendo nada?
Ele sorriu e ao me abraçar, falou:
- Feliz aniversário, Kazuko! Ficarei devendo seu presente por enquanto. E peço desculpas outra vez.
- Eu te perdoo, mas não significa que deixarei de ficar chateada,
Assim, ele se despediu e foi ao seu quarto.
Eu me senti péssima e culpada por estar loucamente apaixonada por ele. A culpa por perdoar, sendo que estava certa de agir da forma como agi.
E bem, usei o presente da Rin – o vibrador – de novo. Talvez para tentar controlar essa carência que estou. Contudo, o vazio ao fim foi o pior de todos. Chorei até cair no sono. Acordei com o travesseiro molhado e vim escrever aqui, precisava colocar para fora.
Voltarei a dormir agora.
Boa noite!”
Já estava tarde e terminei a leitura com um bocejo. Levantei e fui ao quarto e encontrei Kazuko colocando Takumi no berço. Ela sorriu ao me ver.
- Vou tomar banho para deitarmos.
-Tudo bem, te espero.
Apesar de ter quase apagado no banho, levei poucos minutos e sai. Desliguei a luz do quarto e somente o abajur do lado dela me guiou até a cama.

Ajeitei-me, dei um beijo de boa noite nela. Tudo ficou escuro e dormimos.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Capítulo 38 - Briga

A semana de viagem passou mais rápido do que percebi. É sempre assim!
Voltei a trabalhar quase me arrastando de tanta preguiça. Chegar a casa foi uma alegria, ainda mais com Takumi feliz ao me ver. Tomei um banho e fui à sala junto com minha esposa, aproveitando para ler. Busquei pelo diário em minha maleta e ele não estava lá. Procurei uma, duas vezes. Depois indaguei:
- Kazuko, você viu o caderno? – chamamos assim para ninguém notar
- Não levou para o trabalho hoje? Eu não mexi, tem que estar ai.
- Não está. Já olhei três vezes.
- Será que não esqueceu na gaveta?
- Só o coloco aqui, leio e guardo.
- Pode ter caído, amor. Amanhã você pergunta por lá.
- Eu não posso perdê-lo. Sabe disso!
- Sei, Makoto. Fique calmo que logo acha.
- Assim espero.
Sem poder ler, fui assistir a um filme com minha esposa.
No dia seguinte, perguntei ao meu chefe se não vira, procurei nos achados e perdidos, procurei na minha mesa e nada. Já estava sem esperança, provavelmente caiu na rua e alguém está lendo cenas eróticas entre eu e minha esposa.
Estava aceitando a situação, quando sinto alguém cutucar em mim. Era um dos meus colegas de trabalho, o mesmo que me pegou lendo o diário e eu menti para ele dizendo que era um livro. Ele segurava algo na outra mão e disse:
- Está procurando isso? – e me mostrou o caderno
- Onde encontrou?
- Na verdade, caiu de sua maleta ontem. Você foi embora e ela ficou ao lado da sua cadeira, caído. Como vi que era aquele livro, levei para casa, ia te devolver hoje de qualquer forma. Mas acabei lendo também e, bem... Acho que me entende!
- Obrigado! Não sabia o quanto estava louco atrás disso.
- E me perdoe ter lido coisas tão pessoais da sua escrava. Mas, como ela te deixou ler isto?
- É da minha esposa, que era minha escrava.
- Ah, sim. – riu – Vê se guarda direito da próxima vez.
-Claro!
E fala com ela que daria um bom livro. – e voltou para sua mesa
Respirei aliviado, pelo menos não o perdi tão longe. Eu tinha muito trabalho naquele dia, então, coloquei o diário na minha bolsa e só fui ler mesmo em casa, antes de dormir. O trecho do dia era sobre o momento mais conturbado da relação (se é que podia se chamar assim) entre Kana e Kazuko.
“Querido diário,
É madrugada e só agora consegui me acalmar e conter o choro por conta do que aconteceu. Estou cheia de roxos e cortes feitos por vidro em meu corpo. O motivo? Eu e Kana tivemos uma briga, fisicamente falando. Ela quis tirar satisfação comigo, por razões de: ‘eu sei que você dormiu com o Makoto, sua puta.’
Porém, vamos por ordem cronológica. Saí para almoçar com a Rin e a Namie de novo.  E claro, elas me contaram como ia o bebê e o quanto estavam ansiosas com tudo. Eu contei-lhes sobre o ocorrido na festa de trabalho do Makoto. Rin comentou, por fim:
- Ele não te puniu pelo que fez?
- O que faria se estava bêbado? – retruquei
- E você, - era Namie – não ficou na vontade?
- Fiquei e muito, tanto que até usei o vibrador.
- É sério? – ambas indagaram curiosas – E como foi a experiência?
- Boa. – respondi com desânimo – Fantasiei com ele e quando gozei, me senti vazia, estranha. Faltava algo.
- Você está apaixonada por ele, não é? – questionou Rin, pegando em minha mão
- Queria muito dizer que não. – senti uma lágrima cair – Mas estou.
- E logo neste momento em que ele está compromissado. – Namie completou
- Sei que deve ter relutado muito contra este sentimento e percebeu o quanto lhe é ruim. E claro, falar para ele não é uma opção.
Neguei com a cabeça, concordando com ela.
- Fico imaginando se a Kana descobre, tanto disso quanto das duas noites. – desabafei
- Ela é mais perigosa que o Makoto agora. Pode manipulá-lo para fazer tudo contra você.
- Sei disso. Mesmo com a promessa dele de que isso não ocorreria.
- Só podemos lhe desejar forças, Kazuko. – Namie segurou minha outra mão
- Eu sei. Só de poder contar tudo para alguém, já me sinto melhor.
Após esta conversa, mudamos de assunto.
Fiquei a tarde inteira fora, só cheguei perto de escurecer, ela já estava lá, com todas as pedras na mão dela.
- Onde estava, queridinha?
- Passeando com umas amigas.
- Amigas é? Achei que fosse sozinha e pelo visto chegou fora do horário estipulado.
- Na verdade, não! Está escurecendo agora.
- Falarei com Makoto sobre isso. Não pode quebrar as regras. – levantou-se e me pegou pelo braço e continuou, em tom mais baixo – E eu sei que está descumprindo uma.
- E qual seria? – ironizei, louca para destilar o veneno
- Não se faça de sonsa, garota. Acha que não sei o que houve naquele ‘aniversário de escrava’ e não deixarei isto barato.
- Tire satisfação com o Makoto e não comigo. E para sua informação, nós também transamos quando voltamos da festa do trabalho. – menti
- Como é que é? – ela apertou meu braço
- Isso que você ouviu. Não se faça de surda! Ele voltou completamente bêbado e acabou acontecendo.
- Sua puta maldita! – gritou
E ela fez algo que me assustou. Jogou-me para frente e eu cai em cima da mesa de centro, que é de vidro, e que acabou quebrando com o impacto. Eu senti os cacos cortarem algumas partes das minhas costas.
Não tive nem tempo de reagir, Kana veio para cima de mim, puxando meus cabelos e me dando diversos tapas. Não tinha como me defender. Keiko até tentou tirá-la, mas foi afastada e xingada:
-Não se meta, sua empregada de merda!
Tentou de novo e de novo, mas sem sucesso. Enquanto isso, não via nada por entre meus cabelos, estava presa pela cintura e tomava tapas e mais tapas. Só uma pessoa poderia me salvar e nem sei se demoraria a chegar.
A porta abriu e Kana estagnou, apavorada com o som. Era ele entrando. Para tentar se safar, pegou um caco de vidro e cortou o próprio supercílio. E como ela deixou de prestar atenção em mim, foi a minha única chance. Minhas pequenas brigas ao decorrer dos meus dezoito anos me serviram para esse momento. Encaixei um soco na base do nariz dela, que reclamou de dor e afrouxou a prisão. Empurrei-a para a lado e me levantei, ajeitando os cabelos. Então, Makoto falou, se aproximando:
- O que está acontecendo?
- Ela me atirou na mesa de centro sem motivo aparente, por sorte só machuquei o supercílio e o nariz. – Kana foi mais rápida
- Keiko, pode me dizer o que houve?
- Só as ouvi conversando lá da cozinha. Ouvi o estrondo do vidro se partindo e corri para cá. Kana estava em cima da Kazuko, batendo nela. Tentei separar, mas acabei sendo ferida também.
Eu vi o olhar que ela lançou a Keiko, com um ódio tremendo por trás. Nem sei qual era o meu estado, mas Makoto me abordou:
-Você está bem? – limpando algo da minha boca
- Ei, claro que ela está bem. Olha só o meu nariz! – de novo, ela me atropelou
- Keiko, traz o kit de primeiros socorros e gelo, por favor. – disse sentando a Kana no sofá – Kana, qual foi a razão dessa briga?
- Não sei, querido. – respondeu chorando falsamente – Acho que ela tem inveja de mim ou talvez tenha ciúme de você. Até as duas coisas!
A falta de noção dela é impressionante. Eu era a vítima, mas ela fazia aquele teatro ridículo. Era a minha palavra contra a dela. E mesmo com minhas costas ardendo, ele quis ouvir a ela. E continuei acompanhando aquele monólogo de merda dela.
- Ela chegou toda esquentada e nervosa da rua, resolveu descontar em mim.
Keiko chegou com a maleta de socorros e o gelo.
- Cuida da Kazuko para mim, por favor. E pode deixar que eu arrumo isso. – ele pediu e me olhou – Depois conversamos sobre isso.
- Vamos, Keiko. Não quero ficar aqui.
Fomos até o meu quarto. Tirei a minha blusa para ela poder limpar os cortes com uma toalha molhada. E como ardeu quando passou o remédio. Enquanto isso, conversávamos:
- O que fez para ela te atirar na mesa?
- Você viu?
- Vi. Só não escutei a conversa.
- Menti sobre uma coisa: que eu e Makoto transamos na noite da festa.
- Por que fez isso?
- Não sei! Eu queria ver a cara dela, acho.
- Essa moça é perigosa, Kazuko. Não mexa com ela!
- Não vou fazer como os outros e apenas aguentar calada. Se ficarmos quietas, ela continua rebaixando a mim e a você. Faço por nós duas.
- Obrigada! – ela sorriu – Só não falo por medo de ser demitida.
-Keiko, - me virei para ela – acha que Makoto faria isso?
- Ele não, mas ela sim. E se eles casarem?
- Não me fale sobre isso. Acho que iria sofrer mais ainda. Não suporto vê-la ao lado dele. Makoto ficou tão diferente perto dela.
- Por que está falando isso? Sente algo por ele?
- Está tão na cara assim?
- Eu vejo como olha para ele todos os dias no café da manhã. Não lhe culpo, o Makoto é um ótimo rapaz. E vocês ficariam lindos juntos.
- O Koishiro também pensa assim.
- Então, por que convidou a Kana para o aniversário dele?
- Foi a pedido dos pais dela.
- Entendo. Mas precisa falar a ele o que sente.
- Não, Keiko. Tenho medo do que pode acontecer se fizer isso.
- Nunca vai saber se não tentar.
- Não enquanto ele estiver com a Kana.
Fiquei em meu quarto e jantei ali mesmo. Dormi cedo e fui acordada com uma voz masculina me chamando. Era Makoto!
- Desculpe te acordar agora. É que a Kana não desgrudou de mim até adormecer.
- Tudo bem. – bocejei
- O que aconteceu de verdade?
- Achei que tivesse acreditado nela.
- Você não a agrediria a não ser para se defender. Bem ou mal, você sabe dos limites.
- Diferente dela. – ele pôs a mão em meu rosto e eu comecei – Eu cheguei e ela já estava aqui, achando que estava atrasada. Falou comigo sobre as regras e me pressionou sobre a regra de não dormimos juntos. Sabia que a descumpri.
- Espera! Ela comentou algo sobre o dia da festa do trabalho. Você mentiu para mim sobre?
- Não, menti para ela. Para descarregar essa raiva dela. Só não esperava que ela me jogasse na mesa. Subiu em mim e começou a me bater. Quando você chegou, ela ficou sem ação, se feriu com um dos pedaços de vidro e aproveitei a distração para acertar o nariz. Dai para frente, já sabe.
- O que faço com vocês duas? – ele soltou
- Desculpe tê-la provocado de propósito.
- Eu podia te punir por isso.
- Pode me punir, se quiser. Não me arrependo do que fiz.
- Vou tirar sua “liberdade diurna” por um mês.
- Tudo bem.
- E tem mais uma coisa: a noite do meu aniversário, você passará aqui.
Baixei a cabeça, segurando o choro.
- Ei! – falou levantando meu queixo – foi você quem pediu.
- Eu sei, mas, poxa, logo o seu aniversário?
- Eu passo o dia com você.
- A Kana vai deixar muito.
- A gente foge dela.
E rimos.
- Ela vai dar um jeito de nos encontrar.
- Eu juro que almoço com você no meu aniversário. Alias, vai ter tanta gente aqui que vai gostar de ficar no quarto.
- Se você diz...
- Preciso voltar. Senão ela acorda. – se levantou e antes de sair, questionou – Vai ficar bem? Eu não gosto de te ver triste.
- Vou sim. Me recupero!
- Boa noite!
Respondi a tentei pegar no sono em vão, por isso vim escrever-lhe.
Até!”
Fechei o diário e coloquei na mesinha.
E é claro que contei o caso da “perda do diário” a Kazuko. E é claro que ela riu de mim. Safada!
Apaguei o abajur e fui dormir.

domingo, 2 de julho de 2017

Capítulo 37 - Reais Sentimentos

Por sorte ou pela graça do direito ao descanso, o final de semana chegou. E com ele veio uma viagem à praia, a mesma que minha família tem casa de veraneio e já vim com Kazuko diversas vezes.
Eu tirei uns dias de folga no trabalho para ficar uma semana inteira aqui, em família. Na verdade, apenas eu, Kazuko e Takumi.
Claro que não li durante o dia, estava aproveitando os momentos. Só fui fazê-lo a noite, antes de dormir. Kazuko já estava apagada ao meu lado de tão cansada.
Minha leitura para aquela noite era do evento de confraternização do trabalho, que é feito uma vez ao ano. Era para Kana ter ido comigo, mas ela acabou viajando no período e eu fiquei sem par. Ou melhor, Kazuko virou meu par.

“Diário querido,
Ontem a noite eu tive um autocontrole tremendo. Fico imaginando a merda que daria se eu tivesse cedido e fraquejado.
Como disse antes, era à festa do trabalho do Makoto que eu iria. Em virtude da viagem da outra, eu fui a sortuda.
Tomei um banho, sequei meus cabelos e logo Makoto trouxe o vestido que usaria. Um lindo longo azul, com detalhes prata nas alças e no busto. Os sapatos e outros acessórios também prateados.
Tirei o roupão que usava e fiquei seminua diante dele, que só faltou se esconder. Resmungou:
- Podia ter se trocado no banheiro, Kazuko.
- Aqui não tem nada que nunca tenha visto, Makoto. Não sei que graça é essa.
- As coisas são diferentes agora.
- Não vai trair a Kana só de olhar para mim
- Não me provoque. – ele retrucou
- Tá bem. Fecha para mim. – virei de costas para ele, que puxou o zíper – Que tal estou? – dei uma girada
- Linda! – sorriu – E o cabelo? Fará o quê?
- Irei com ele solto mesmo.
- Nada disso. Senta aqui. – foi até a escrivaninha, que é um penteadeira na verdade – O colar vai sumir em baixo dele. Tem algo para prender?
Sentei e lhe dei o que pediu. Estava curiosa sobre o que faria. Vi seus dedos indo de um lado para o outro no espelho. No final, prendeu.
- Pronto. Uma trança embutida para a senhorita.
- Não dá para ver. – ele pegou o espelho grande e colocou atrás de mim, então eu vi – Adorei!
- Só falta o batom agora!
- Mas, não tenho nada que combine com o vestido.
- Ou o rosa ou o cor-de-boca, que é quase rosa também.
- Você entende mais disso do que eu.
- Eu tenho três madrastas e convivi anos com elas. – ele olhou para meu rosto no espelho – Vai com o rosa, já que colocou marrom na sombra. E leve para retocar, caso necessário.
Iríamos junto com Hiro, chefe de Makoto e Yoko, a esposa dele. (Quando me livro de uma, a outra aparece.) Eu já esperava que Makoto não voltasse sóbrio para casa. As madrastas me contaram que ele bebia demais algumas vezes.
Logo a carona chegara e a viagem seguiu quieta, já que a conversa ficaria para a festa. Era em um hotel chique. O salão fora reservado apenas para o pessoal do escritório onde Makoto trabalha e que não é pequeno. O local estava cheio e tinha uma pista de dança mais abaixo e as mesas à frente. Fomos cumprimentando as pessoas. Eu fui apresentada como uma amiga de Makoto, a fim de evitar comentários. Yoko nem falou nada sobre isso. Escolhemos uma mesa e sentamos, logo a conversa começou:
- Uma pena sua namorada não vir, Makoto. – disse um dos que estavam na mesa conosco
- Ela viajou. – Makoto respondeu
- Mas, pelo menos temos uma companhia boa aqui. Não podia vir a este evento desacompanhado pelo terceiro ano seguido. – comentou Hiro
E eles riram. Eu e Yoko mantivemos o silêncio. Então, o chefe de Makoto sugeriu:
- Vão lá dançar, jovens. Eu não tenho mais ânimo para tal.
Levantamos e eu me diverti. Deixei a música me levar e Makoto me acompanhou. E, naturalmente, ele me puxava para perto de si. Olha que nem tinha bebido ainda. O garçom passou servindo e ele pegou champanhes para nós.
- Vamos brindar! – gritou no meu ouvido com a voz sendo abafada pelo som – Pela minha felicidade e a sua.
Batemos as taças e bebemos um gole. A dança continuou até a bebida acabar. Voltamos e jantamos com os outros que estavam à mesa conosco.
E não aconteceu nada de muito interessante, só dançar que foi divertido. Era apenas eu, Makoto e a música. Na mesa, me sentia excluída. Observei Makoto virar copos e mais copos de bebida. Já estava falando demais e não andava direito. Passadas algumas longas horas até dançar ficou chato, pois ele já estava completamente bêbado. Nunca na vida achei que fosse ver alguém nesse estado.
Hiro e Yoko nos chamaram para ir embora. Eu só agradeci mentalmente, por só ter que aguentar a ressaca dele agora.
Deixaram-nos na porta do prédio. Consegui subir e entrar no apartamento com muita dificuldade para carregá-lo. Arrastei-o até o quarto e ia apenas jogá-lo na cama da forma como estava, mas aí ele começou a agir por conta da bebida, dizendo:
- Kazuko, dorme aqui comigo. – sentei-o na cama – Tô com saudade de você.
- Pare de falar merda, Makoto.
- Transar com a Kana é uma merda. Ela é passiva demais.
Eu queria mesmo crer que era efeito do álcool.
- Tá bom. Agora só deita e dorme. Eu vou pro meu quarto. Boa noite!
Terminei minha fala e me virei, contudo ele me puxou pelo pulso e roubou-me um beijo. Numa situação normal, teria rejeitado. Só que todos meus sentimentos guardados falaram mais alto e eu retribui. Ignorei o gosto terrível da saliva dele e permiti ser abraçada.
Quando nos separamos, ele fez uma careta e pôs a mão no estômago. Tive de ser rápida.
- Pro banheiro. Depressa! – dei um empurrão nele
Não é preciso ser um gênio para saber que ele vomitaria. Por sorte, tudo foi para a privada. Segurei as costas dele para que não caísse. Quando terminou, se jogou no chão do banheiro. E ele olhou para mim com uma cara de sofrido e ficaria por ali mesmo até amanhecer. Levantei-o e o despi, colocando-o embaixo do chuveiro.
- Vai tomar banho comigo? – perguntou
Eu estragaria o vestido se fosse dar banho nele. Tirei minha roupa, desfiz o penteado e entrei. Ajudei-o a retirar aquele cheio horrível de bebida do corpo. Acabei me limpando também. Mais um beijo roubado embaixo do chuveiro. Eu o queria. Ele também me queria, mas estava fora do seu estado normal. Eu, por estar sóbria, devia manter as regras cumpridas. Mas, não consegui me controlar. Cada toque me enfraquecia mais.
Secamo-nos e fomos a cama. Estávamos atracados e chegando nos finalmentes. Só que minha consciência resolveu me perturbar.
- Por que parou, Kazuko?
- Eu não posso continuar com isso. É contra a regra que me impôs. Não devia nem estar aqui.
- Esquece a regra. – ele ordenou
- Você não está em seu estado normal, não vou obedecer.
- Kazuko, estou mandando: me satisfaça agora.
Por mim, tinha montado nele, mas só fiz um oral até ele gozar. Estava tão bêbado que nem se lembraria no dia seguinte. O corpo dele ficou mais mole quando acabou. Apenas me agradeceu e lhe dei um último beijo antes de sair. Nem minha saída foi reclamada.
Fechei a porta do meu quarto e me senti suja por ter feito aquilo. Estaria encrencada de manhã. Abri a gaveta da escrivaninha e olhei o presente que Rin me deu no meu último aniversário. Um fogo interno me consumia e eu relutei em usar aquilo, mas a vontade estava forte demais.
Olhei rápido no manual como colocar a bateria e fantasiei ser o Makoto. Não demorei cinco minutos para estar completamente acabada. Fiquei feliz por alguns segundos e depois chorei. Era bom, mas vazio.
Depois disso, eu dormi. Acordei com a luz do sol me incomodando. Guardei o vibrador no mesmo lugar, após limpá-lo. Vesti uma roupa e abri a porta do quarto do Makoto e vi que ele ainda dormia. Fui fazer o café da manhã, em seguida levei para ele no quarto. Chamei-o, que despertou resmungando:
- Ah, que dor de cabeça. Precisava mesmo me acordar agora?
- É só para o desjejum, depois você pode dormir.
- Acho que eu bebi demais ontem. – trouxe a bandeja – Aconteceu algo? Por que eu tô pelado?
- Você vomitou e eu te dei um banho. Mas não conseguiria te vestir de novo.
- É só isso mesmo? – esticou o pescoço – Suas roupas estão lá também.”

Eu lembrava vagamente do que aconteceu, em flashes de memória. Só que tudo era confuso. Sabia que saíra da festa carregado, lembro de vomitar, de estar embaixo do chuveiro e das sensações de prazer, após isso só de manhã. Foi por isso que perguntei.

“- Não podia molhar aquele vestido. Eu te coloquei na cama e sai.
- Não está contando a história toda! Tem uma lacuna, tenho certeza. Fala!
Olhei para baixo, respirei fundo e soltei receosa:
- Juro que não quebrei a sua regra de que não deveríamos transar, mas foi quase ontem. Você estava muito alterado.
- O que fizemos?
- Trocamos umas carícias e eu fiz um oral em você. – não podia olhar para ele – Já sei, não contarei à Kana.
- Acredito. Outra coisa: eu falei algo?
- Não. – menti, olhando convicta nos olhos dele, tomando coragem – Só me agarrou mesmo.
- Muito bem. – abocanhou um pedaço de bolo
Estava aliviada por dentro. A pior parte passou. O problema seria a Kana agora.
- Com licença, Makoto. Vou tomar café e meu banho matinal. – fui em direção à porta
- Ei, Kazuko. – me virei – Obrigado por cuidar do bebum.
- Não foi nada. Depois lhe trago um remédio para a dor de cabeça.
Estou aqui agora comendo e lhe contando o que ocorreu.
Achei que fosse ser punida pelo que fiz, porém Makoto compreendeu que não me aproveitei dele daquela forma.
Ainda estou com peso da mentira, mas é melhor que aquela fala morra comigo.”

Eu entendia e sabia o que tinha trancado naquele momento. Se não fosse por ela, provavelmente teríamos transado, porque eu queria isso. Lamentei de não lembrar, ou melhor, de não saber. Minha consciência não queria trair a Kana, contudo minha vontade era dormir como Kazuko, todos os dias que quisesse e terminar de vez com a insatisfação que tinha com a namorada.

Fechei o diário e Takumi, que dormia no meio da cama, se mexeu. Coloquei o diário na mesa de cabeceira, apaguei o abajur e fui domir. 

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Capítulo 36 - Serviçal?

Depois do meu aniversário de casamento, os dias seguintes seguiram normalmente, lê-se: com muito trabalho e leitura do diário, é claro.
Passaram-se mais semanas no diário, estava na parte em que a minha relação com Kazuko melhorara bastante e com a Kana dava cada dia mais certo. Apesar do pouco tempo de namoro, sofria pressão para desposá-la. Vinham mais dos pais dela do que do meu. Ele não parecia satisfeito.
Cheguei mais cedo em casa, tomei um banho e fui ao quarto ler.

“Olá Diário,
Hoje foi aquele bendito chá que a Kana fez aqui com as amigas, pois elas queriam conhecer o Makoto.
 Pobre da Keiko e de mim, que tivemos que fazer toda a comida para elas. (Eu ajudei para não deixar a Keiko sobrecarregada.) E Kana foi bem explícita nas regras: nós devíamos servi-las.
No final da tarde, umas 16h, ela chegou e logo vieram as ordens:
- Já está tudo pronto? – sim, ela não nos cumprimentou”

Kana insistira muito para ter essa reunião com as amigas dela. Muitas não eram da época de infância e colégio, então queriam me conhecer. As outras? Elas queriam saber a quantas andava a minha vida.
Eu só deixei-a pedir a Keiko fazer coisas demais, acabou sobrando.

“- Boa tarde, Kana. – respondi irônica – E sim está tudo pronto.
- Querida, falei com a Keiko e não com você. – patada pouca é bobagem – Por que não está no seu quarto? Seu lugar é lá!
- Só estava auxiliando a Keiko. Era muito para ela sozinha.
- É o trabalho dela, não? Tem que agradecer ao Makoto este emprego.
- Senhora, não vejo nada demais nela me ajudar. – Keiko disse, baixando a cabeça, Kana sempre a humilhava também – Tudo está pronto!
- Arrumem a mesa então.
Assim fizemos e as amigas delas foram chegando e os comentários eram assim:
- Nossa! Que apartamento grande o dele.
- Uau, amiga! O namorado é bom de vida!
Por sorte, elas não haviam me notado. Ainda.
Elas se sentaram nos sofás da sala e puxaram algumas cadeiras da mesa de jantar. Elas estavam sentadas e conversavam sobre tudo, até sobre mim:
- Ele tem uma escrava, não é, Kana?
- Tem sim!
- E isso não atrapalha o namoro?
- Por que atrapalharia? Ela é só uma coisa que o satisfaz, mas agora ele tem a mim.
E as amigas riram.
- Coitada! Perdeu a única função que tinha na vida.
- Eu acho que não. – disse Kana baixinho – Tenho certeza que eles passaram uma noite juntos umas semanas atrás. Ele inventou uma desculpa de “1º aniversário de dono”.
- O quê? Você não perguntou a ele?
- Claro que não.
Então, Keiko, educadamente, interrompeu a conversa:
- Posso começar a serví-las? – todas assentiram e ela me chamou – Pode trazer.
Agora elas me notariam. Cheguei com os sanduíches que fizemos. Keiko informou qual era o sabor enquanto servia a bebida. E a Kana resolveu nos apresentar:
- Esta é Keiko, a empregada. – e se virou para mim, ai não – E esta é Kazuko, a escrava de Makoto. – e a voz da safada saiu tão natural
Um instante de silêncio, ninguém acreditava no que acabaram de ouvir. Ela reforçou, explicando:
- Ele deu diversas liberdades a ela, como ficar livre em casa e até poder sair.
- Mentira, amiga?
- É verdade. Não é, que-ri-da?
Que filha da puta. Eu me senti obrigada a responder.
- É sim. Eu tenho “liberdade diurna”.
- Que esquisito. – uma afirmou – Isso é um passo mais fácil para ela fugir.
Será que as pessoas podem se referir a mim diretamente?
- Nunca faria isso. O Makoto confia em mim!
- Que tolinha. Está apaixonada por ele é?
- Eu também penso isso. – Kana riu – Só porque ganhou uns privilégios... Vocês são tão rasas.
- Alias, -  outra começou – o chama pelo nome?
- Eles dois se chamam pelo nome.
Caretas de reprovação. Kana usou como desculpa o seguinte:
- Também não entendo. Ele diz que ela deve ser tratada como nós, pois também é humana.
- Se fosse outra época, ele podia ser preso até. Sorte dele estarmos em tempos mais brandos.”

No início deste período de escravos comprados, era extremamente proibido que eles recebessem qualquer liberdade condicional. E quem tivesse os mesmos pensamentos que eu acabava, preso por ser considerado um revolucionário.
Foram estes, os revolucionários, quem conseguiram melhorar um pouco as coisas para os escravos, mesmo que muitas delas sejam facultativas.
Infelizmente, muitos ainda têm as ideias iniciais ainda enraizadas em si.

“Eu me afastei, pois terminara de servi-las. Continuei ouvindo a conversa:
- Talvez seja porque o pai dele é casado com as três escravas. – completou Kana
- Quê? A coisa é de família então?
Assim como eu, as madrastas e o pai de Makoto sofrem muito preconceito. Tanto por serem polígamos e por elas serem ex-escravas.
- Por que está com ele, amiga?
- É inteligente, culto e também têm todas essas posses. Dá para perdoar esse detalhe.
Eu nem acreditava no que escutava. Até eu poderia citar melhores qualidades do Makoto, que além de inteligente, é amigo, companheiro e sempre tenta me fazer esquecer o que eu sou. Ele me trata talvez como alguém da família.
E, sim, eu sou uma “tolinha” por ter me apaixonado por ele. Tentei e tentei mentir sobre isso, mas depois do primeiro aniversário de escrava não podia mais insistir que não.
E não contei isto a ninguém, eu posso ser muito julgada. Por enquanto, eu tento esconder com minhas ações, porém a cada dia é mais difícil. Sei bem que isto nunca dará em nada. Sei muito bem que sofrerei por conta por culpa desse sentimento. Só que não há uma forma de desligar.
Ouvi o som da chave na porta e a maçaneta girar, era ele que chegara. No meio daquela barulheira de fofocas, só eu percebi. Fui cumprimentá-lo.
- Boa noite, Makoto. – abracei-o e foda-se o que elas pensam
- Boa noite, Kazuko. – deu-me um beijo na testa e continuou, mexendo em meus cabelos – Já está todo mundo ai? – assenti – E que cara é essa?  - não escondia a insatisfação
- O mesmo de sempre. Não me acostumo.
- Me deixa ir socializar, queria tomar banho, mas nem isso tô podendo. – me desvencilhei dele – Traz algo para eu comer, por favor.
- Claro.
Abandonou a maleta em um canto e foi falar com as pessoas. Logo levei o que pedira. E durante a conversa na porta, pude escutá-las comentando:
- Olha lá.
- Olha isso.
- Gente...
Entreguei um suco e dois sanduíches a ele, que já estava ao lado de Kana, sentado.
- Obrigado, Kazuko.
- De nada, Makoto. – sorri e ele correspondeu
E eu tive bocas arregaladas para o meu deleite. Retornei à companhia de Keiko, e claro, continuei ouvindo a conversa. As amigas de Kana perguntavam com o que ele trabalhava, da família, dos relacionamentos antigos, de mim e quais as pretensões que ele tinha com Kana.
- Claro que pretendemos nos casar. – ela respondeu por ele, que fez uma careta – Já adiamos por tempo demais. E já temos uma aliança de compromisso. Olha!
Sons de surpresa e de surto. A aliança em questão? A mesma que usei na viagem com Makoto e notei que ele estava com a sua também. Não sei exatamente qual foi o motivo, mas vê-la usando aquele anel tocou-me de um modo ruim. Imediatamente senti meus olhos queimarem, fechei-os com força, tentando segurar. Porém, percebi que não adiantaria e sai depressa em direção ao meu quarto. Todos pararam o que faziam para me ver passar. Keiko veio atrás de mim e Makoto também.
- O que houve, Keiko? – ele indagou da porta
- Eu não sei, Sr. Makoto.
- Só me deixem sozinha. – gritei com o choro abafado pelo travesseiro
- Keiko, pode nos deixar a sós, por favor?
- Claro. –  saiu em seguida
Ouvi a porta do quatro bater e Makoto se aproximar e sentar ao meu lado na cama. Eu me levantei e virei para ele.
- Pode começar. – ele foi incisivo – Sei que não foi nada.
Olhei para baixo, com medo de dizer aquilo. Seria dar um atestado de apaixonada para ele. Então, apelei para uma pergunta:
- Quando você e a Kana começaram a usar as alianças?
Ele baixou a cabeça antes de responder:
- Ela acabou encontrando a caixa nas gavetas e achou que fosse para ele. Então, levei essa mentira adiante.
- Tudo bem. – enxuguei minhas lágrimas – Fico imaginando o que ela falaria às amigas se soubesse da verdade. – e desabafei – Só é chato vê-la usando a minha aliança.
- Convenhamos que não combina muito com ela.
E rimos. Logo, questionei:
- Por que ainda insiste nisso se não gosta dela?
- Eu quero fazer dar certo. Quero dar um rumo na minha vida.
- Você quer ou alguém lhe disse que estava na hora já?
- Segunda opção.
- Quem foi?
- O pessoal do trabalho, disseram que é bom ter família e etc.
- Tem que parar de ouvir o que os outros dizem e seguir o destino do jeito que quiser, no seu tempo.
- Não é só isso. Acho que já estou em tempo de focar no amor. Eu fico só no trabalho, não posso adiar isto. Convenientemente, a Kana apareceu novamente.
- E você pretende casar com ela?
- Talvez. Ela é a minha melhor opção.
- Não, Makoto. Ela é a sua única opção. Não se pressione.
- É que eu nunca fui muito bom nesse tipo de coisa, Kazuko.
- Conta outra, Makoto.
- Não na questão de começar um relacionamento, mas sair dele. Tenho medo de decepcionar a outra pessoa.
- Ai que está: Você vai, mesmo que não queira. Mesmo sendo o mais delicado possível.
- Mas acho a Kana alguém legal, eu quero mesmo tentar.
- Tudo bem. Eu não mando em você. Faça o que quiser.
Ele apenas sorriu como forma de agradecimento.
- Vai voltar para lá? – perguntou
- Sim. – assenti e completei antes dele atravessar a porta – Pensa bem no que está fazendo.
- Eu sei. – e fechou
Kana nem quis saber o motivo do meu choro. Ela está passando a noite aqui de novo e ouço os sons deles no quarto. Como é escandalosa!
Até, diário!”

Ainda bem que a Kazuko me ensinou a largar essa mania de ouvir e ligar demais para os outros.

Ela quem entrou no quarto, me chamando para jantar. Fiz companhia a ela e meu filho até a hora de dormir.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Capítulo 35 - Dona por uma noite

Hoje é uma noite especial. Completa exatamente um ano que eu e Kazuko nos casamos. Meu chefe me liberou mais cedo. Peguei minha esposa em casa. Deixamos Takumi aos cuidados das minhas madrastas, que logo terão mais um bebê. Meu pai está todo bobo por mais um filho a caminho.
Kazuko e eu não pudemos fazer um plano muito bom para nossas Bodas de Papel. Decidimos jantar e pernoitar em uma cobertura de um hotel chique. E é exatamente o mesmo de uma outra noite de primeiro aniversário.
Após o jantar, que foi no nosso quarto mesmo, vocês sabem que oque aconteceu. Não preciso nem falar!
No dia seguinte, levantei mais cedo que ela. Pedi o café da manhã que demoraria um pouco a ser servido. Enquanto esperava, decidi ler o diário. E era logo sobre a noite que eu e Kazuko comemoramos o 1º ano de escravidão dela. Agora eu me pergunto: O que eu tinha na cabeça quando fiz isso? Acho que devia estar com um peso na consciência, da mesma forma que fora no aniversário dela, por conta da nossa relação se encontrar esquisita. Mal nos falávamos durante os dias. Kana estava sempre comigo e Kazuko não gostava de ser vouyer. Então, resolvi fazer essa surpresa.
Querido Diário,
Eu sinceramente não posso contar o que aconteceu ontem a mais ninguém do que aqui e para você. Estou digerindo tudo. Existem momentos em que simplesmente não consigo compreender o Makoto.
Calma, vamos por partes.
Era próxima da hora dele chegar do trabalho e não havia sinal da Kana, que todas as noites está aqui. Estava adorando o silêncio e a paz até que a porta da sala se abriu. Obviamente era Makoto, pensei eu, acompanhado da Kana. Só que eu me enganei. Ele chegou sozinho, cumprimentou a mim e Keiko. Depois, eu disse:
-A Kana não chegou.
-Eu sei, Kazuko. Pedi a ela que não viesse hoje. Afinal, é um dia importante. – fiz careta e ele prosseguiu – Isso é para você, – estendeu e mostrou a caixa que carregava – para usar hoje. Vista-se para sairmos.
Makoto resolveu quebrar todas as regras de uma vez. E eu, claro, obedeci.
Levei a caixa comigo para o quarto. Ao abrir, vi que era um vestido longo preto, com uma listra branca em diagonal, vindo da esquerda até o outro lado. Ironicamente ou não, também tinha lingerie na caixa, pretas e brancas como o vestido. Ainda bem que eu tinha sapato para combinar com isso. Fiz um penteado básico. Já sabia muito bem o que ele pretendia. Deve ter ficado enjoado de transar com a Kana e resolveu quebrar a própria regra de “estarei traindo-a se dormir com você” só para sentir que variou um pouco. Se era isso que ele queria, era isso que ele teria.
Saí do quarto e o vi sorrir e soltar:
-Está linda, Kazuko.
-Obrigada. – tentei não transparecer a pequena raiva em mim – Para onde vamos?
-Isso é surpresa!
Ai, Makoto, não estou com saco para essas brincadeiras. Foi um pensamento daqueles que nunca falo.
Descemos junto com Keiko, que se despediu de nós na portaria. Eu e Makoto entramos no carro e saímos. Dirigiu até a área comercial e turística de Ioma. Uma região com diversos hotéis. Entramos do Midas Plaza, um dos mais chiques. Estacionou na frente dele e fomos ao hall, que tinha o pé direito mais alto, um chão de mármore negro muito bem encerado e parede em tons de bege. Havia uma enorme árvore no meio, completamente florida. Eu fiquei encantada. Na recepção, ele falou:
-Boa noite. Tenho uma reserva para a suíte presidencial.
-Boa noite. – respondeu a atendente - Qual seu nome, senhor?
-Miyasaki Makoto.
Ela olhou no computador, levantou-se, pegou uma chave no quadro que ficava atrás dela. Voltou e entregou para Makoto.
-Aqui, Sr. Miyasaki. Aproveitem a estadia. Logo o jantar chegará.
Apenas agradeceu e pegamos o elevador, subindo até a cobertura. Minha língua estava queimando para destilar um comentário.
-Sinceramente, Makoto, não precisava disso tudo se você só quer transar comigo. Era só me chamar para seu quarto, como sempre faz. – cruzei os braços
-Você não entendeu o porquê estamos aqui hoje.
-O que tem especial justamente hoje, Makoto?
-Onde estávamos exatamente um ano atrás? – indagou, e a porta do elevador se abriu
Enquanto ele virava a chave para entrar, fiquei matutando o que poderia ser. E não demorou cinco segundos para eu descobrir. Eu olho essa data todo dia ao abrir este caderno. Agora me diz: Que dono leva a escrava para sair e comemorar mais um ano de escravidão? E tem gente que diz que tirei “sorte grande”. Ainda estou procurando o universo em que isso aconteceu.
-Isso é coisa a se comemorar?- foi a única coisa que saiu da minha boca
-Eu acho que sim. Faz um ano que nos conhecemos e passamos por um monte de coisas nesse meio tempo.
Pronto! Foi aí que eu baixei a guarda. Merda! Merda! Merda! Meu coração acelerou, fora do meu controle.
Eu estou com sentimentos que sei que não deveria ter, contudo não consigo impedi-los. Minha baixa de guarda se concretizou com uma lágrima solitária que caiu. Eu fiquei muda, estagnada diante da porta e ele entrou. Demorou um pouco até me notar naquele estado. Então, se aproximou de mim.
-Ei, Kazuko! – levantou meu rosto – O que houve?
-Nada. – respondi tirando a mão dele e empurrando-o para que pudesse entrar
Ele sabia tão bem quanto eu que não era nada. Fechou a porta e completou:
-Olha, eu sei que tenho te tratado mal desde que entrei nesse relacionamento com a Kana. A nossa relação ficou esquisita desde então.
-Makoto, a minha posição perante ti torna isto assim. – interrompi-o, sentando num sofá que tinha ali
-Eu sei. – disse se ajoelhando a minha frente
-Por que está fazendo isso? – olhei para ele
-Quero me redimir. Sei que deve estar querendo me matar. – riu
-Se quisesse mesmo, já teria feito. – sorri
-Vamos esquecer tudo. Pelo menos hoje. Só eu e você, como no começo. Combinado?
Assenti. A campainha tocou, o jantar chegara. Fomos servidos apenas de prato principal e sobremesa, sendo salmão e petit gateau, respectivamente. Enquanto comíamos, também conversávamos. Tinha meses que não fazíamos assim. Ele perguntou como estava minha família, minhas amigas, minha saúde e sobre a Rin. E claro, lhe contei a novidade sobre o filho das duas. Makoto se mostrou feliz por elas.
Eu lhe indaguei sobre os casos que estava pegando no trabalho. Assunto vai, assunto vem, resolvi questionar uma coisa:
-Desculpa voltar nisso, mas o que disse a Kana para que pudéssemos sair hoje?
-Falei a verdade. Claro que ela não entendeu muito bem.
-Isso pode causar problemas.
-Apenas entre eu e ela. Não se preocupe. Só... Vamos esquecer isso agora tá?
-Tá bom. Só quis perguntar.
Logo terminamos de comer e nos levantamos. Então, Makoto falou:
-Tenho mais uma surpresa. – “aí não”, foi o que pensei – Vou ali e já volto. – se dirigiu ao banheiro, sem antes pegar algo que estava nas costas de uma cadeiras
Sentei-me na cama e só esperei. E quando ele saiu, não tive como não conter a gargalhada. Saiu vestindo apenas uma tanguinha vermelha.
-Makoto, o que é isso?
-Surpresa! – disse dando uma voltinha – Que tal estou?
-Engraçado... E ridículo!
-Nisso eu tenho que concordar. Não sei o que a Kana tinha na cabeça quando pediu para eu colocar isso.
-Pelo menos não é tão cavado na bunda. – levantei, abri e tirei o vestido – Não vou deixar você ficar despido sozinho.
-Mas você está sexy e eu não. – então pegou em minhas mãos – Hoje vamos trocar de papéis.
-Como assim? – franzi e testa
-Você será a dona e eu, o escravo.
Sorri maliciosamente e empurrei-o na cama. Sem pensar duas vezes, arranquei a única peça de roupa que ele usava. Não me importava de que Makoto só queria variar um pouco comigo, me importava que eu mataria o desejo que tinha dele naquela noite. E eu era a dona, eu queria ser satisfeita.
Excitei-o um pouco com minha boca, depois tirei minha calcinha e montei nele, que ficou apenas segurando minhas coxas para me ajudar no meu movimento. E nem ele e nem eu aguentamos por muito tempo. Eu gozei colocando a cabeça para trás e soltando um grito contido, para em seguida desfalecer sob o peito de Makoto.
Compartilhamos nossas respirações descompassadas por uns minutos, até que eu virei para o lado vazio da cama.
-Satisfeita, senhora? – indagou irônico
O meu silêncio foi um sim. Makoto se enrolou em um dos lençóis e foi olhar a vista da sacada, que era logo em frente. Fiquei uns minutos deitada, em seguida fiz outro lençol dali de vestido e me juntei a ele.
-A vista é linda daqui. – comentei
-É! – se voltou para mim – Quer voltar para o quarto, senhora?
-Não precisa me chamar assim.
-Eu quero te chamar desse jeito. Faça o mesmo comigo.
-Makoto então, este é o seu nome.
-Tudo bem. – apenas sorriu
Ele se aproximou de mim, pegou em meu rosto e me beijou do jeito que eu queria e até sonhava tem meses. Ainda puxando meu corpo junto ao dele. Quando nos desvencilhamos, ele falou:
-Não era para eu para eu ter feito isso.Desculpe!
Que vontade que fiquei de falar: cala a boca e me beija, Makoto. Mas, só o agarrei para mais um, que levou a outro e mais outro, até que lá estávamos de novo. E assim se repetiu por algumas vezes. Quando cansamos, ficamos deitados até tentar pegar no sono. Então, ele questionou algo, bem “tarde demais”:
-Senhora, esqueci de perguntar: tem tomado seu remédio?
-Só depois que você lembra disso, Makoto? – e ri – Tomo todos os dias. Cerimonialmente. – completei séria – Não quero que passemos por aquilo de novo.
-Ainda é ruim quando recorda?
-Não! Mas, tudo é diferente agora. Não sei o que a Kana pode pensar disso.
-Que talvez foi um acidente?
-Ela sabe bem que tomo pílula. E vai afirmar que fiz de propósito para atrapalhar vocês. Só isso que faço para ela!
-Já percebi que vocês não se dão bem.
-Não, Makoto. Ela não admite que eu possa ter a liberdade que me dá. Por ela, ficaria trancada o dia todo no quarto. Eu juro que é só isso nela que me incomoda. Pode perguntar a Keiko o que acontece antes de você chegar. Ela me enche de perguntas preconceituosas e invasivas. Não consigo ser mal educada e não responder. É bem óbvio que ela vai me sondar para saber o que houve hoje. - nesse momento já estava sentada na cama e bem nervosa após o desabafo.
Ele se levantou e disse, olhando para mim:
- Não fazia ideia de que isso acontecia.
-Ela consegue te cegar, Makoto. Você se torna uma outra pessoa perto dela. – já sentia meus olhos marejarem – Eu acabo me sentindo solitária, mesmo com a companhia da Keiko. Depois que ela vai para casa, só piora. Por isso tenho saído muito durante o dia, para conversar com a Rin, a minha mãe, até com suas madrastas e seu pai. Uma pena que, como tenho horário para voltar, sempre ao chegar ela está no sofá e me olha com o ar reprovador dela. – completei debulhada em lágrimas, ele me abraçou – Desculpa. Sei que disse para esquecer isso, mas falei mesmo assim.
-Só ouvi o seu desabafo, minha senhora. Não reprovei nada do que falou.
-Já pode esquecer o personagem, Makoto. Mesmo que façamos essa brincadeira inúmeras vezes, você nunca saberá o que é realmente estar no meu lugar.
Enrolei-me no lençol e sai para a varanda. A voz dele veio atrás.
-E você nunca saberá o que eu passo por ser o tipo de dono que sou. Também tenho que enfrentar olhares reprovadores, todos os dias no escritório. Sempre comentam: olha o dono que deixa a escrava sair e deu uma festa de aniversário para ela. Entre outras coisas. Quando ando com você na rua, posso ver muita gente olhando para nós, talvez seja por isso que segure sua mão, para desviar sua atenção disso. E, sim, a Kana pergunta porque eu faço tudo isso e eu só digo: acho que ela é uma pessoa com tanto direito a respeito quanto nós. E sabe o que ela faz? Fecha a cara e isso me dá uma raiva. Não por mim, mas por você. Você não merece isso! Maldito foi o dia em que fui ao centro de escravos e te comprei.
Ele falou isto da porta o tempo todo, seguido por um som de choro. Quando ele se calou, ousei olhar para trás e o vi ajoelhado com a cabeça baixa. Meu impulso foi abraçá-lo. E o desabafo dele se completou:
-Desculpa, Kazuko. Me desculpa!
E nada mais precisou ser dito. Após alguns minutos fomos dormir.
Eu acordei com o Sol incomodando meus olhos e ele ainda dormia. Vesti minha lingerie e liguei para a recepção pedindo o café da manhã. Coloquei um roupão por cima. Logo, o serviço de quarto chegou. O barulho da mesa sendo posta o fez despertar. Agradeci o garçom, dei-lhe uma gorjeta, ele saiu e fui chamar Makoto.
-Bom dia! – sorri
-Bom dia, olhos inchados de tanto chorar.
-Você também.
-Que horas são?
-Nove e meia. Já pedi nosso café da manhã.
-Eu percebi. Ele só podia ter feito um pouco menos de barulho. Vou me vestir, senta lá e me espera.
Assenti. Ele só colocou a cueca mesmo e veio bocejando, mostrando o peitoral agora um pouco mais definido. Ele começou uns exercícios quando começou a namorar.
-A malhação está te fazendo bem, Makoto.
-Você acha? – disse olhando o abdômen – Não notei tanto a diferença.
-É porque você vê todo dia. E bem... Tem muito tempo que não te via sem camisa. Não tinha como eu não perceber. Por que não tira fotos uma vez por semana, por exemplo? Ai observará a diferença.
-Tem razão. É uma boa ideia!
E nossa conversa continuou e se assemelhou a de todas as antigas manhãs. Tomamos um banho e já iriamos descer para dar checkout no hotel. Eu parei perto da entrada e um monte de coisas passaram pela minha cabeça, principalmente o fato de que tudo podia voltar ao “normal”. Makoto passou do meu lado e antes que pusesse o pé para fora do limite, o segurei, indagando:
-Me promete uma coisa?
-O que, Kazuko? – olhou para mim
-Que não vai deixar tudo voltar a ser como era antes desta noite.
Ele pegou em minha mão e disse:
-Eu prometo! E não deixarei mais ninguém desrespeitar e nem te menosprezar, nem mesmo a Kana. Pode me contar tudo o que ela fizer.
E um beijo selou esta promessa. Apesar de tudo, senti um medo daquela noite ter acabado. Por mim, ela duraria para sempre. Só eu e Makoto!
Saímos e viemos direto para casa. Foi uma noite boa, estranha e confusa para nós, acho eu.
Nossa relação acabou de sofrer outro choque e talvez mudança. Espero que para melhor.
Vamos ver como ficarão as coisas quando a Kana vier hoje à tarde.”

Fechei o diário e no instante seguinte a comida chegou. Logo Kazuko acordou e aproveitamos a refeição juntos.