sexta-feira, 17 de março de 2017

Capítulo 35 - Dona por uma noite

Hoje é uma noite especial. Completa exatamente um ano que eu e Kazuko nos casamos. Meu chefe me liberou mais cedo. Peguei minha esposa em casa. Deixamos Takumi aos cuidados das minhas madrastas, que logo terão mais um bebê. Meu pai está todo bobo por mais um filho a caminho.
Kazuko e eu não pudemos fazer um plano muito bom para nossas Bodas de Papel. Decidimos jantar e pernoitar em uma cobertura de um hotel chique. E é exatamente o mesmo de uma outra noite de primeiro aniversário.
Após o jantar, que foi no nosso quarto mesmo, vocês sabem que oque aconteceu. Não preciso nem falar!
No dia seguinte, levantei mais cedo que ela. Pedi o café da manhã que demoraria um pouco a ser servido. Enquanto esperava, decidi ler o diário. E era logo sobre a noite que eu e Kazuko comemoramos o 1º ano de escravidão dela. Agora eu me pergunto: O que eu tinha na cabeça quando fiz isso? Acho que devia estar com um peso na consciência, da mesma forma que fora no aniversário dela, por conta da nossa relação se encontrar esquisita. Mal nos falávamos durante os dias. Kana estava sempre comigo e Kazuko não gostava de ser vouyer. Então, resolvi fazer essa surpresa.
Querido Diário,
Eu sinceramente não posso contar o que aconteceu ontem a mais ninguém do que aqui e para você. Estou digerindo tudo. Existem momentos em que simplesmente não consigo compreender o Makoto.
Calma, vamos por partes.
Era próxima da hora dele chegar do trabalho e não havia sinal da Kana, que todas as noites está aqui. Estava adorando o silêncio e a paz até que a porta da sala se abriu. Obviamente era Makoto, pensei eu, acompanhado da Kana. Só que eu me enganei. Ele chegou sozinho, cumprimentou a mim e Keiko. Depois, eu disse:
-A Kana não chegou.
-Eu sei, Kazuko. Pedi a ela que não viesse hoje. Afinal, é um dia importante. – fiz careta e ele prosseguiu – Isso é para você, – estendeu e mostrou a caixa que carregava – para usar hoje. Vista-se para sairmos.
Makoto resolveu quebrar todas as regras de uma vez. E eu, claro, obedeci.
Levei a caixa comigo para o quarto. Ao abrir, vi que era um vestido longo preto, com uma listra branca em diagonal, vindo da esquerda até o outro lado. Ironicamente ou não, também tinha lingerie na caixa, pretas e brancas como o vestido. Ainda bem que eu tinha sapato para combinar com isso. Fiz um penteado básico. Já sabia muito bem o que ele pretendia. Deve ter ficado enjoado de transar com a Kana e resolveu quebrar a própria regra de “estarei traindo-a se dormir com você” só para sentir que variou um pouco. Se era isso que ele queria, era isso que ele teria.
Saí do quarto e o vi sorrir e soltar:
-Está linda, Kazuko.
-Obrigada. – tentei não transparecer a pequena raiva em mim – Para onde vamos?
-Isso é surpresa!
Ai, Makoto, não estou com saco para essas brincadeiras. Foi um pensamento daqueles que nunca falo.
Descemos junto com Keiko, que se despediu de nós na portaria. Eu e Makoto entramos no carro e saímos. Dirigiu até a área comercial e turística de Ioma. Uma região com diversos hotéis. Entramos do Midas Plaza, um dos mais chiques. Estacionou na frente dele e fomos ao hall, que tinha o pé direito mais alto, um chão de mármore negro muito bem encerado e parede em tons de bege. Havia uma enorme árvore no meio, completamente florida. Eu fiquei encantada. Na recepção, ele falou:
-Boa noite. Tenho uma reserva para a suíte presidencial.
-Boa noite. – respondeu a atendente - Qual seu nome, senhor?
-Miyasaki Makoto.
Ela olhou no computador, levantou-se, pegou uma chave no quadro que ficava atrás dela. Voltou e entregou para Makoto.
-Aqui, Sr. Miyasaki. Aproveitem a estadia. Logo o jantar chegará.
Apenas agradeceu e pegamos o elevador, subindo até a cobertura. Minha língua estava queimando para destilar um comentário.
-Sinceramente, Makoto, não precisava disso tudo se você só quer transar comigo. Era só me chamar para seu quarto, como sempre faz. – cruzei os braços
-Você não entendeu o porquê estamos aqui hoje.
-O que tem especial justamente hoje, Makoto?
-Onde estávamos exatamente um ano atrás? – indagou, e a porta do elevador se abriu
Enquanto ele virava a chave para entrar, fiquei matutando o que poderia ser. E não demorou cinco segundos para eu descobrir. Eu olho essa data todo dia ao abrir este caderno. Agora me diz: Que dono leva a escrava para sair e comemorar mais um ano de escravidão? E tem gente que diz que tirei “sorte grande”. Ainda estou procurando o universo em que isso aconteceu.
-Isso é coisa a se comemorar?- foi a única coisa que saiu da minha boca
-Eu acho que sim. Faz um ano que nos conhecemos e passamos por um monte de coisas nesse meio tempo.
Pronto! Foi aí que eu baixei a guarda. Merda! Merda! Merda! Meu coração acelerou, fora do meu controle.
Eu estou com sentimentos que sei que não deveria ter, contudo não consigo impedi-los. Minha baixa de guarda se concretizou com uma lágrima solitária que caiu. Eu fiquei muda, estagnada diante da porta e ele entrou. Demorou um pouco até me notar naquele estado. Então, se aproximou de mim.
-Ei, Kazuko! – levantou meu rosto – O que houve?
-Nada. – respondi tirando a mão dele e empurrando-o para que pudesse entrar
Ele sabia tão bem quanto eu que não era nada. Fechou a porta e completou:
-Olha, eu sei que tenho te tratado mal desde que entrei nesse relacionamento com a Kana. A nossa relação ficou esquisita desde então.
-Makoto, a minha posição perante ti torna isto assim. – interrompi-o, sentando num sofá que tinha ali
-Eu sei. – disse se ajoelhando a minha frente
-Por que está fazendo isso? – olhei para ele
-Quero me redimir. Sei que deve estar querendo me matar. – riu
-Se quisesse mesmo, já teria feito. – sorri
-Vamos esquecer tudo. Pelo menos hoje. Só eu e você, como no começo. Combinado?
Assenti. A campainha tocou, o jantar chegara. Fomos servidos apenas de prato principal e sobremesa, sendo salmão e petit gateau, respectivamente. Enquanto comíamos, também conversávamos. Tinha meses que não fazíamos assim. Ele perguntou como estava minha família, minhas amigas, minha saúde e sobre a Rin. E claro, lhe contei a novidade sobre o filho das duas. Makoto se mostrou feliz por elas.
Eu lhe indaguei sobre os casos que estava pegando no trabalho. Assunto vai, assunto vem, resolvi questionar uma coisa:
-Desculpa voltar nisso, mas o que disse a Kana para que pudéssemos sair hoje?
-Falei a verdade. Claro que ela não entendeu muito bem.
-Isso pode causar problemas.
-Apenas entre eu e ela. Não se preocupe. Só... Vamos esquecer isso agora tá?
-Tá bom. Só quis perguntar.
Logo terminamos de comer e nos levantamos. Então, Makoto falou:
-Tenho mais uma surpresa. – “aí não”, foi o que pensei – Vou ali e já volto. – se dirigiu ao banheiro, sem antes pegar algo que estava nas costas de uma cadeiras
Sentei-me na cama e só esperei. E quando ele saiu, não tive como não conter a gargalhada. Saiu vestindo apenas uma tanguinha vermelha.
-Makoto, o que é isso?
-Surpresa! – disse dando uma voltinha – Que tal estou?
-Engraçado... E ridículo!
-Nisso eu tenho que concordar. Não sei o que a Kana tinha na cabeça quando pediu para eu colocar isso.
-Pelo menos não é tão cavado na bunda. – levantei, abri e tirei o vestido – Não vou deixar você ficar despido sozinho.
-Mas você está sexy e eu não. – então pegou em minhas mãos – Hoje vamos trocar de papéis.
-Como assim? – franzi e testa
-Você será a dona e eu, o escravo.
Sorri maliciosamente e empurrei-o na cama. Sem pensar duas vezes, arranquei a única peça de roupa que ele usava. Não me importava de que Makoto só queria variar um pouco comigo, me importava que eu mataria o desejo que tinha dele naquela noite. E eu era a dona, eu queria ser satisfeita.
Excitei-o um pouco com minha boca, depois tirei minha calcinha e montei nele, que ficou apenas segurando minhas coxas para me ajudar no meu movimento. E nem ele e nem eu aguentamos por muito tempo. Eu gozei colocando a cabeça para trás e soltando um grito contido, para em seguida desfalecer sob o peito de Makoto.
Compartilhamos nossas respirações descompassadas por uns minutos, até que eu virei para o lado vazio da cama.
-Satisfeita, senhora? – indagou irônico
O meu silêncio foi um sim. Makoto se enrolou em um dos lençóis e foi olhar a vista da sacada, que era logo em frente. Fiquei uns minutos deitada, em seguida fiz outro lençol dali de vestido e me juntei a ele.
-A vista é linda daqui. – comentei
-É! – se voltou para mim – Quer voltar para o quarto, senhora?
-Não precisa me chamar assim.
-Eu quero te chamar desse jeito. Faça o mesmo comigo.
-Makoto então, este é o seu nome.
-Tudo bem. – apenas sorriu
Ele se aproximou de mim, pegou em meu rosto e me beijou do jeito que eu queria e até sonhava tem meses. Ainda puxando meu corpo junto ao dele. Quando nos desvencilhamos, ele falou:
-Não era para eu para eu ter feito isso.Desculpe!
Que vontade que fiquei de falar: cala a boca e me beija, Makoto. Mas, só o agarrei para mais um, que levou a outro e mais outro, até que lá estávamos de novo. E assim se repetiu por algumas vezes. Quando cansamos, ficamos deitados até tentar pegar no sono. Então, ele questionou algo, bem “tarde demais”:
-Senhora, esqueci de perguntar: tem tomado seu remédio?
-Só depois que você lembra disso, Makoto? – e ri – Tomo todos os dias. Cerimonialmente. – completei séria – Não quero que passemos por aquilo de novo.
-Ainda é ruim quando recorda?
-Não! Mas, tudo é diferente agora. Não sei o que a Kana pode pensar disso.
-Que talvez foi um acidente?
-Ela sabe bem que tomo pílula. E vai afirmar que fiz de propósito para atrapalhar vocês. Só isso que faço para ela!
-Já percebi que vocês não se dão bem.
-Não, Makoto. Ela não admite que eu possa ter a liberdade que me dá. Por ela, ficaria trancada o dia todo no quarto. Eu juro que é só isso nela que me incomoda. Pode perguntar a Keiko o que acontece antes de você chegar. Ela me enche de perguntas preconceituosas e invasivas. Não consigo ser mal educada e não responder. É bem óbvio que ela vai me sondar para saber o que houve hoje. - nesse momento já estava sentada na cama e bem nervosa após o desabafo.
Ele se levantou e disse, olhando para mim:
- Não fazia ideia de que isso acontecia.
-Ela consegue te cegar, Makoto. Você se torna uma outra pessoa perto dela. – já sentia meus olhos marejarem – Eu acabo me sentindo solitária, mesmo com a companhia da Keiko. Depois que ela vai para casa, só piora. Por isso tenho saído muito durante o dia, para conversar com a Rin, a minha mãe, até com suas madrastas e seu pai. Uma pena que, como tenho horário para voltar, sempre ao chegar ela está no sofá e me olha com o ar reprovador dela. – completei debulhada em lágrimas, ele me abraçou – Desculpa. Sei que disse para esquecer isso, mas falei mesmo assim.
-Só ouvi o seu desabafo, minha senhora. Não reprovei nada do que falou.
-Já pode esquecer o personagem, Makoto. Mesmo que façamos essa brincadeira inúmeras vezes, você nunca saberá o que é realmente estar no meu lugar.
Enrolei-me no lençol e sai para a varanda. A voz dele veio atrás.
-E você nunca saberá o que eu passo por ser o tipo de dono que sou. Também tenho que enfrentar olhares reprovadores, todos os dias no escritório. Sempre comentam: olha o dono que deixa a escrava sair e deu uma festa de aniversário para ela. Entre outras coisas. Quando ando com você na rua, posso ver muita gente olhando para nós, talvez seja por isso que segure sua mão, para desviar sua atenção disso. E, sim, a Kana pergunta porque eu faço tudo isso e eu só digo: acho que ela é uma pessoa com tanto direito a respeito quanto nós. E sabe o que ela faz? Fecha a cara e isso me dá uma raiva. Não por mim, mas por você. Você não merece isso! Maldito foi o dia em que fui ao centro de escravos e te comprei.
Ele falou isto da porta o tempo todo, seguido por um som de choro. Quando ele se calou, ousei olhar para trás e o vi ajoelhado com a cabeça baixa. Meu impulso foi abraçá-lo. E o desabafo dele se completou:
-Desculpa, Kazuko. Me desculpa!
E nada mais precisou ser dito. Após alguns minutos fomos dormir.
Eu acordei com o Sol incomodando meus olhos e ele ainda dormia. Vesti minha lingerie e liguei para a recepção pedindo o café da manhã. Coloquei um roupão por cima. Logo, o serviço de quarto chegou. O barulho da mesa sendo posta o fez despertar. Agradeci o garçom, dei-lhe uma gorjeta, ele saiu e fui chamar Makoto.
-Bom dia! – sorri
-Bom dia, olhos inchados de tanto chorar.
-Você também.
-Que horas são?
-Nove e meia. Já pedi nosso café da manhã.
-Eu percebi. Ele só podia ter feito um pouco menos de barulho. Vou me vestir, senta lá e me espera.
Assenti. Ele só colocou a cueca mesmo e veio bocejando, mostrando o peitoral agora um pouco mais definido. Ele começou uns exercícios quando começou a namorar.
-A malhação está te fazendo bem, Makoto.
-Você acha? – disse olhando o abdômen – Não notei tanto a diferença.
-É porque você vê todo dia. E bem... Tem muito tempo que não te via sem camisa. Não tinha como eu não perceber. Por que não tira fotos uma vez por semana, por exemplo? Ai observará a diferença.
-Tem razão. É uma boa ideia!
E nossa conversa continuou e se assemelhou a de todas as antigas manhãs. Tomamos um banho e já iriamos descer para dar checkout no hotel. Eu parei perto da entrada e um monte de coisas passaram pela minha cabeça, principalmente o fato de que tudo podia voltar ao “normal”. Makoto passou do meu lado e antes que pusesse o pé para fora do limite, o segurei, indagando:
-Me promete uma coisa?
-O que, Kazuko? – olhou para mim
-Que não vai deixar tudo voltar a ser como era antes desta noite.
Ele pegou em minha mão e disse:
-Eu prometo! E não deixarei mais ninguém desrespeitar e nem te menosprezar, nem mesmo a Kana. Pode me contar tudo o que ela fizer.
E um beijo selou esta promessa. Apesar de tudo, senti um medo daquela noite ter acabado. Por mim, ela duraria para sempre. Só eu e Makoto!
Saímos e viemos direto para casa. Foi uma noite boa, estranha e confusa para nós, acho eu.
Nossa relação acabou de sofrer outro choque e talvez mudança. Espero que para melhor.
Vamos ver como ficarão as coisas quando a Kana vier hoje à tarde.”

Fechei o diário e no instante seguinte a comida chegou. Logo Kazuko acordou e aproveitamos a refeição juntos.

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