segunda-feira, 26 de junho de 2017

Capítulo 36 - Serviçal?

Depois do meu aniversário de casamento, os dias seguintes seguiram normalmente, lê-se: com muito trabalho e leitura do diário, é claro.
Passaram-se mais semanas no diário, estava na parte em que a minha relação com Kazuko melhorara bastante e com a Kana dava cada dia mais certo. Apesar do pouco tempo de namoro, sofria pressão para desposá-la. Vinham mais dos pais dela do que do meu. Ele não parecia satisfeito.
Cheguei mais cedo em casa, tomei um banho e fui ao quarto ler.

“Olá Diário,
Hoje foi aquele bendito chá que a Kana fez aqui com as amigas, pois elas queriam conhecer o Makoto.
 Pobre da Keiko e de mim, que tivemos que fazer toda a comida para elas. (Eu ajudei para não deixar a Keiko sobrecarregada.) E Kana foi bem explícita nas regras: nós devíamos servi-las.
No final da tarde, umas 16h, ela chegou e logo vieram as ordens:
- Já está tudo pronto? – sim, ela não nos cumprimentou”

Kana insistira muito para ter essa reunião com as amigas dela. Muitas não eram da época de infância e colégio, então queriam me conhecer. As outras? Elas queriam saber a quantas andava a minha vida.
Eu só deixei-a pedir a Keiko fazer coisas demais, acabou sobrando.

“- Boa tarde, Kana. – respondi irônica – E sim está tudo pronto.
- Querida, falei com a Keiko e não com você. – patada pouca é bobagem – Por que não está no seu quarto? Seu lugar é lá!
- Só estava auxiliando a Keiko. Era muito para ela sozinha.
- É o trabalho dela, não? Tem que agradecer ao Makoto este emprego.
- Senhora, não vejo nada demais nela me ajudar. – Keiko disse, baixando a cabeça, Kana sempre a humilhava também – Tudo está pronto!
- Arrumem a mesa então.
Assim fizemos e as amigas delas foram chegando e os comentários eram assim:
- Nossa! Que apartamento grande o dele.
- Uau, amiga! O namorado é bom de vida!
Por sorte, elas não haviam me notado. Ainda.
Elas se sentaram nos sofás da sala e puxaram algumas cadeiras da mesa de jantar. Elas estavam sentadas e conversavam sobre tudo, até sobre mim:
- Ele tem uma escrava, não é, Kana?
- Tem sim!
- E isso não atrapalha o namoro?
- Por que atrapalharia? Ela é só uma coisa que o satisfaz, mas agora ele tem a mim.
E as amigas riram.
- Coitada! Perdeu a única função que tinha na vida.
- Eu acho que não. – disse Kana baixinho – Tenho certeza que eles passaram uma noite juntos umas semanas atrás. Ele inventou uma desculpa de “1º aniversário de dono”.
- O quê? Você não perguntou a ele?
- Claro que não.
Então, Keiko, educadamente, interrompeu a conversa:
- Posso começar a serví-las? – todas assentiram e ela me chamou – Pode trazer.
Agora elas me notariam. Cheguei com os sanduíches que fizemos. Keiko informou qual era o sabor enquanto servia a bebida. E a Kana resolveu nos apresentar:
- Esta é Keiko, a empregada. – e se virou para mim, ai não – E esta é Kazuko, a escrava de Makoto. – e a voz da safada saiu tão natural
Um instante de silêncio, ninguém acreditava no que acabaram de ouvir. Ela reforçou, explicando:
- Ele deu diversas liberdades a ela, como ficar livre em casa e até poder sair.
- Mentira, amiga?
- É verdade. Não é, que-ri-da?
Que filha da puta. Eu me senti obrigada a responder.
- É sim. Eu tenho “liberdade diurna”.
- Que esquisito. – uma afirmou – Isso é um passo mais fácil para ela fugir.
Será que as pessoas podem se referir a mim diretamente?
- Nunca faria isso. O Makoto confia em mim!
- Que tolinha. Está apaixonada por ele é?
- Eu também penso isso. – Kana riu – Só porque ganhou uns privilégios... Vocês são tão rasas.
- Alias, -  outra começou – o chama pelo nome?
- Eles dois se chamam pelo nome.
Caretas de reprovação. Kana usou como desculpa o seguinte:
- Também não entendo. Ele diz que ela deve ser tratada como nós, pois também é humana.
- Se fosse outra época, ele podia ser preso até. Sorte dele estarmos em tempos mais brandos.”

No início deste período de escravos comprados, era extremamente proibido que eles recebessem qualquer liberdade condicional. E quem tivesse os mesmos pensamentos que eu acabava, preso por ser considerado um revolucionário.
Foram estes, os revolucionários, quem conseguiram melhorar um pouco as coisas para os escravos, mesmo que muitas delas sejam facultativas.
Infelizmente, muitos ainda têm as ideias iniciais ainda enraizadas em si.

“Eu me afastei, pois terminara de servi-las. Continuei ouvindo a conversa:
- Talvez seja porque o pai dele é casado com as três escravas. – completou Kana
- Quê? A coisa é de família então?
Assim como eu, as madrastas e o pai de Makoto sofrem muito preconceito. Tanto por serem polígamos e por elas serem ex-escravas.
- Por que está com ele, amiga?
- É inteligente, culto e também têm todas essas posses. Dá para perdoar esse detalhe.
Eu nem acreditava no que escutava. Até eu poderia citar melhores qualidades do Makoto, que além de inteligente, é amigo, companheiro e sempre tenta me fazer esquecer o que eu sou. Ele me trata talvez como alguém da família.
E, sim, eu sou uma “tolinha” por ter me apaixonado por ele. Tentei e tentei mentir sobre isso, mas depois do primeiro aniversário de escrava não podia mais insistir que não.
E não contei isto a ninguém, eu posso ser muito julgada. Por enquanto, eu tento esconder com minhas ações, porém a cada dia é mais difícil. Sei bem que isto nunca dará em nada. Sei muito bem que sofrerei por conta por culpa desse sentimento. Só que não há uma forma de desligar.
Ouvi o som da chave na porta e a maçaneta girar, era ele que chegara. No meio daquela barulheira de fofocas, só eu percebi. Fui cumprimentá-lo.
- Boa noite, Makoto. – abracei-o e foda-se o que elas pensam
- Boa noite, Kazuko. – deu-me um beijo na testa e continuou, mexendo em meus cabelos – Já está todo mundo ai? – assenti – E que cara é essa?  - não escondia a insatisfação
- O mesmo de sempre. Não me acostumo.
- Me deixa ir socializar, queria tomar banho, mas nem isso tô podendo. – me desvencilhei dele – Traz algo para eu comer, por favor.
- Claro.
Abandonou a maleta em um canto e foi falar com as pessoas. Logo levei o que pedira. E durante a conversa na porta, pude escutá-las comentando:
- Olha lá.
- Olha isso.
- Gente...
Entreguei um suco e dois sanduíches a ele, que já estava ao lado de Kana, sentado.
- Obrigado, Kazuko.
- De nada, Makoto. – sorri e ele correspondeu
E eu tive bocas arregaladas para o meu deleite. Retornei à companhia de Keiko, e claro, continuei ouvindo a conversa. As amigas de Kana perguntavam com o que ele trabalhava, da família, dos relacionamentos antigos, de mim e quais as pretensões que ele tinha com Kana.
- Claro que pretendemos nos casar. – ela respondeu por ele, que fez uma careta – Já adiamos por tempo demais. E já temos uma aliança de compromisso. Olha!
Sons de surpresa e de surto. A aliança em questão? A mesma que usei na viagem com Makoto e notei que ele estava com a sua também. Não sei exatamente qual foi o motivo, mas vê-la usando aquele anel tocou-me de um modo ruim. Imediatamente senti meus olhos queimarem, fechei-os com força, tentando segurar. Porém, percebi que não adiantaria e sai depressa em direção ao meu quarto. Todos pararam o que faziam para me ver passar. Keiko veio atrás de mim e Makoto também.
- O que houve, Keiko? – ele indagou da porta
- Eu não sei, Sr. Makoto.
- Só me deixem sozinha. – gritei com o choro abafado pelo travesseiro
- Keiko, pode nos deixar a sós, por favor?
- Claro. –  saiu em seguida
Ouvi a porta do quatro bater e Makoto se aproximar e sentar ao meu lado na cama. Eu me levantei e virei para ele.
- Pode começar. – ele foi incisivo – Sei que não foi nada.
Olhei para baixo, com medo de dizer aquilo. Seria dar um atestado de apaixonada para ele. Então, apelei para uma pergunta:
- Quando você e a Kana começaram a usar as alianças?
Ele baixou a cabeça antes de responder:
- Ela acabou encontrando a caixa nas gavetas e achou que fosse para ele. Então, levei essa mentira adiante.
- Tudo bem. – enxuguei minhas lágrimas – Fico imaginando o que ela falaria às amigas se soubesse da verdade. – e desabafei – Só é chato vê-la usando a minha aliança.
- Convenhamos que não combina muito com ela.
E rimos. Logo, questionei:
- Por que ainda insiste nisso se não gosta dela?
- Eu quero fazer dar certo. Quero dar um rumo na minha vida.
- Você quer ou alguém lhe disse que estava na hora já?
- Segunda opção.
- Quem foi?
- O pessoal do trabalho, disseram que é bom ter família e etc.
- Tem que parar de ouvir o que os outros dizem e seguir o destino do jeito que quiser, no seu tempo.
- Não é só isso. Acho que já estou em tempo de focar no amor. Eu fico só no trabalho, não posso adiar isto. Convenientemente, a Kana apareceu novamente.
- E você pretende casar com ela?
- Talvez. Ela é a minha melhor opção.
- Não, Makoto. Ela é a sua única opção. Não se pressione.
- É que eu nunca fui muito bom nesse tipo de coisa, Kazuko.
- Conta outra, Makoto.
- Não na questão de começar um relacionamento, mas sair dele. Tenho medo de decepcionar a outra pessoa.
- Ai que está: Você vai, mesmo que não queira. Mesmo sendo o mais delicado possível.
- Mas acho a Kana alguém legal, eu quero mesmo tentar.
- Tudo bem. Eu não mando em você. Faça o que quiser.
Ele apenas sorriu como forma de agradecimento.
- Vai voltar para lá? – perguntou
- Sim. – assenti e completei antes dele atravessar a porta – Pensa bem no que está fazendo.
- Eu sei. – e fechou
Kana nem quis saber o motivo do meu choro. Ela está passando a noite aqui de novo e ouço os sons deles no quarto. Como é escandalosa!
Até, diário!”

Ainda bem que a Kazuko me ensinou a largar essa mania de ouvir e ligar demais para os outros.

Ela quem entrou no quarto, me chamando para jantar. Fiz companhia a ela e meu filho até a hora de dormir.